Pular para o conteúdo principal

Postagens

Um menino feliz

Há um menino franzino em frente a porta, muito atento a tudo o que acontece a sua volta. Ele para em frente a essa casa de madeira e sente o cheiro de comida vindo da cozinha. Ele respira fundo. Inspira, fechando os olhos. Quer gravar aquele momento no fundo da alma. Sabe que sua memória é rica de pequenos detalhes, quase imperceptíveis para muitos. Moreninho, de pés descalços, todo machucado de tanto brincar na rua; cabelinhos encaracolados iguais aos da sua mãe. Pele queimada de sol, do sol amazonense.Criado na beira mar do bairrro de São Raimundo, em Manaus, sem a possibilidade sequer de se imaginar em uma infância melhor; a começar por tomar banho no rio quase todos os dias. O belo rio Negro! Que de tão escuro, de longe chega a ser azul. Não é literalmente beira mar, porque nem mar é, mas é tão bonito quanto. Ele tinha acabado de brincar de cemitério e de barra-bandeira. Ainda ontem a meninada do bairro brincava de garrafão, quando ele entrou na brincadeira, e caiu, esfolando o d…
Postagens recentes

Abuso sexual infantil e a hipocrisia

Tenho acompanhado as discussoes em relacao a menina de dez anos que engravidou fruto de um estupro e que abortou. É uma coisa tao absurda que nem consigo achar palavras e muito menos meu lugar num posicionamento. Nao tenho coragem de apontar dedo pra absolutamente ninguém numa situação horrorosa dessas. A não ser ao canalha abusador e para algumas pessoas que andam julgando a coisa toda, pensando-se deuses. Nunca podemos apontar dedos a ninguém sem saber o que aquela pessoa passa. Cada um sabe o que vive.  Mas sei que a hipocrisia das pessoas tem chegado a um nível absurdo, digna de fim dos tempos mesmo. E nao entendo porque poucos falam desse terrível mal que é o abuso infantil. Só estao discutindo se o aborto foi ou nao correto. Sim, eu sou contra o aborto. E acho sim, que nao precisava ter acontecido. Agora o seu ódio cresceu contra mim e já quer parar de ler, nao é? Mas, putz,  matar um bebê de seis meses dentro da barriga da mãe é muita sacanagem! Por que nao tiraram o bebê numa c…

Do dia a dia em tempos difíceis

O jardim tem sido meu lugar de terapia. Mexer com terra, podar, regar, adubar. Para cada planta, uma necessidade e um tempo diferente. Como tem sido proveitosos esses momentos no quintal! Não canso de agradecer a Deus por Ele nos ter colocado nesta casa antes da pandemia. Ter duas crianças presas em um apartamento sem poder movimentar-se e tomar sol, deve mesmo ser dureza. E o jardim tem se revelado uma caixinha de surpresas pra mim, que nunca tive um aqui e jamais, para ser sincera, havia notado as loucas mudanças que ocorrem dentro dele. É muito incrível perceber uma nova planta que surge do nada, florescendo com belas flores, quando nada, absolutamente nada, se via antes. O inverno cobre com seu manto frio, escondendo tudo e dando a impressao de mortificação. A primavera tira algumas camadas, o verao outras... e a cada mês temos um jardim diferente. Vivo! Isso é quase mágico... **
Tenho um aplicativo maravilhoso no meu celular, o Picture This. Fotografo uma planta que não conheço …

O inferno não é uma metáfora

Hoje para o almoço, fiz um cordeiro assado, num molho de alecrim, alho, cebola, cenoura e aipo. O agradável aroma tomou conta da casa. Enquanto esperava assar, ouvia um pregador que falava sobre nascer de novo. Na hora em que fui abrir o forno que estava há uma hora ligado a duzentos graus, veio sobre meu rosto um forte e quentíssimo bafo. E lembrei das palavras do homem na internet. Ele falava não somente sobre a benção de nascer de novo, que acontece quando cremos a primeira vez no Senhor, como diz em João 12:
"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus"; mas falava também do inferno.
Você que pensa que Jesus veio à terra para ser um exemplo e que ele era só amor, está certíssimo; mas você também sabia que Jesus foi a pessoa que mais falou sobre inferno e lago de fogo em toda a Bílbia? Falou porque é Amor! É um al…

A coisa boa do coronavírus

Sim, estamos vivendo num tempo estranho. Às vezes, observo minha filhinha olhando o vazio por um longo período e seus olhinhos parecem atravessar paredes, brinquedos, pessoas. Queria poder ler pensamentos pra saber onde ela está. Hoje em dia, me pego fazendo o mesmo. Do nada, olho para o céu e num instante vazio, me pergunto onde isso tudo vai parar. De vez em quando também, minha mente me leva para a frente da nossa casa na Vila Militar, onde morei quando tinha dez anos e tia Maria lia para nós o Apocalipse. Lembro claramente das enormes nuvens se acumulando num fim de tarde, do céu tornando-se escuro e a Ave Maria tocando na rádio vinda de um poste da rua. E o medo que surgia do fim do mundo. Naquele tempo eu tinha pavor de Deus. E ainda havia um tal de chupa chupa e os alienígenas que o povo todo falava e que só ajudavam a nos apavorar ainda mais. Hoje compreendo que esse livro da Bíblia tem a função principal de não somente nos alertar para o que há de vir sobre o mundo, mas prin…

Uma nova mudança

E a vida vai começando a normalizar... Devagar, a rotina vai se estabelecendo.  Ah, como é bom uma vida de rotina! Não entendo como tem gente que reclama. Minha vigésima oitava mudança de casa, desde que me entendo por gente. Desta vez, me deu uma canseira: É enchendo e esvaziando caixa que se vê como se está ficando velho... Mas, como tenho coração vagabundo, que não para quieto em lugar nenhum, se me falarem em mudança daqui a alguns anos, é bem capaz que eu tope :-)
Marido, seus pais, amigos e pais de amigos do meu filhinho, estavam preocupados com a sua reação, que está com nove anos e na quarta série, dizendo que ele iria estranhar a mudança, que mudar de escola no meio do ano letivo era uma loucura, que isso e aquilo; já eu, macaca velha, que passei toda minha infância mudando de casa e de escola a cada dois anos, nem liguei. Sabia que meu filhote iria aguentar. Porém, com tanta gente falando, acabei me preocupando e foi assim que fui levá-lo no primeiro dia de aula a nova esco…

Atenção ao outro

Meu marido sempre está com o celular na mão. Ele é aquele tipo de pessoa que caminha pela rua olhando o celular e que consulta absolutamente tudo no google. E quando está em casa, sempre está assistindo TV. O contrário de mim, que detesto televisão, desde meus vinte e dois anos, quando decidi que iria parar de ver novela ao notar que elas estavam atrapalhando meus estudos; e celular, dou uma olhada no máximo umas quatro vezes ao dia e nunca passo muito tempo com ele. Já meus sogros adoram ver televisão e há pouco mais de dois meses, compraram finalmente um smartphone e estão curtindo a nova tecnologia - logo eles que sempre foram contra a ideia de ter um. Por que estou falando isso? Porque estávamos com eles esses dias depois do Natal e sempre acho lindo como eles dois, ambos com setenta e quatro anos, lidam com essas coisas quando estamos hospedados na sua casa. A TV, que eles são apaixonados, nunca é ligada quando os visitamos. Nunca! E eles nem encostam no celular. Se surge alguma…

Culpa e perdão

Algumas vezes, uso a música para estudar francês. É divertido e dá para aprender bastante coisa. Outro dia estava atenta à letra de "Non, je ne regrette rien". É interessante pensar em alguém assim, que não se arrepende de nada, que faz uma fogueira com suas lembrancas, que nao liga para o passado e que considera que tudo já foi pago, já foi dito. De alguma maneira, isso é bom. Porque tem muita gente sofrendo com coisas que ficaram lá num passado distante, pessoas que teimam em ficar remoendo sentimentos. Mas, para um cristão, essa não é realmente uma boa maneira de levar a vida. Vou explicar.  De vez em quando tenho uns "arranca-rabo" com meu marido. E de vez em quando, ele usa um termo alemão: "schlechtes Gewissen", que significa ter má consciência, ou se sentir mal por ter feito algo. Eu sempre me irrito com essa sua frase, porque não vejo mal algum em sentirmos isso de vez em quando. Ele vê. É óbvio que não é legal e nem saudável viver com alguém qu…

Lidando com as emocoes

Sempre fui uma pessoa emotiva em excesso. Tudo doía muito mais do que deveria, do que o esperado, do que o normal. Desde muito menina tem sido assim e eu nunca achei que isso fosse um problema, apesar disso me trazer sempre problemas... Até o dia em que o Senhor me chamou, eu atendi Seu pedido e passei a andar nos Seus caminhos. Desde lá, mais precisamente, maio de 2013, Ele tem me ensinado constante e diariamente, que meu jeito excessivo de sentir as coisas e as emocoes, era desordenado. Entao, Ele tem me "secado" um tanto, quando diminuiu consideravelmente minhas lágrimas. Nao me fazendo entretanto, sofrer menos, mas me fazendo compreender os sentimentos na medida certa.  Deus tem me feito sentir as coisas pelo lado verdadeiro delas, é como se fosse um alimento que quando ingerido, pudéssemos sentir o seu real sabor, o original, sem excesso de condimentos  e sem falta de outros. Essa é aliás, uma das coisas que admiro na cozinha francesa: ela é quase pura, mesmo que você …

Um pedido de desculpas

Hoje estou aqui para me desculpar com alguém. Poderia muito bem falar diretamente com a pessoa para a qual as desculpas devem ser direcionadas, e poupar você de ler minhas chateacoes, mas resolvi que seria  melhor me expor. Me comportei extremamente mal com uma antiga amiga e não sei até hoje o que aconteceu comigo. Ainda me questiono e não sei a resposta para tal comportamento. Pode ser que eu tenha me calado algumas semanas antes e tudo explodiu em quatro dias; pode ser que tenha sido a decepcao com o clima que nos forçou a ficar mais em casa, e não nas praias baianas como pretendíamos; pode ser também que tenha sido a distância, o estresse comum do Brasil, o ficar mais velha e não entender que algumas coisas ficaram definitivamente no passado, ou quem sabe, o fato de ela ser mae há pouco mais de quatro anos e eu há mais de vinte e cinco, e achar na minha soberba, que estou mais certa que ela. Enfim, pode ter havido vários motivos que explicassem meu péssimo comportamento, mas o fat…