11/12/2014

A espera

Ela era ainda pequena. Tinha longas trancas. Longas e escuras. Todos os dias, subia numa cadeira, com seus sapatinhos engraxados, antes de ir a escola. Arrastava-a pelo cômodo, de piso de madeira, muito gasto pelo tempo, naquela casa antiga e fria. Ainda antes do sol nascer. Olhava pelo parapeito da janela para ver se ele vinha. Fazia isso todos os dias, mesmo quando nao havia aula. Acordava cedinho e subia na cadeira. Era a primeira coisa que fazia quando pulava da cama. Olhava, procurando-o. E voltava a descer. - Nada ainda, vovó - falava desapontada àquela que também, assim como ela, aguardava ansiosa e tinha as mesmas trancas, mas há muito tempo nao mais tao escuras. Os olhos da avó brilhavam, tinham sempre um ar molhado e cansado. - Já nao enxergo tao bem filha. Entao, continue você olhando por mim - falava a avó sentada na outra cadeira do outro lado da sala. Balancando-se enquanto cantava uma cancao como que de ninar. Como que.
A mae da menina chegava na sala e revirava os olhos. - Ainda à procura? Suas duas tolinhas. Quando ele vier, vocês saberao. Nao entenderam ainda? - Comentava a mae, meio que resmungando. Meio que.

Ela sabia o amor que unia as duas geracoes a sua frente. A filha que nasceu de um parto difícil há quase seis anos e que foi quase que completamente, cuidada pela avó, e a mae, que parecia a cada dia, ficar mais distante com seus quase setenta anos. Ambas pareciam viver em um sonho. Toda noite se reuniam a mesa de jantar, à luz de uma vela, para ler e ouvir histórias. - Vovó, tudo isso é um faz de conta como as historinhas que vemos na escola, como quando a Susie fez a princesa e o Andrew o bruxo? - Nao filha, este livro conta histórias reais, mesmo que nosso vizinho, aí do lado, nao acredite. Houve testemunhas, e alguns fatos foram contados de pai pra filho, mesmo antes de ele nascer em forma de letras impressas - Respondia a avó com tamanha veemência que à netinha só restava acatar. Ia dormir toda noite pensando que deveria estar pronta. Por isso ia para a cama com os sapatinhos sempre perto e uma bolsa costurada pela avó com sua boneca dentro. - Nao vou a lugar nenhum sem você, Louise. Dizia baixinho à boneca loura, de rosto rosado e cabelos emaranhados, que ganhara de aniversário do pai que morrera aquele ano, quando ela completava três.  

Aquela manha fora acordada pela mae. A avó nao estava bem e chamava por ela. Saiu correndo, descendo as escadas, esqueceu de colocar os sapatos, esquecera a bolsa, nao subiu na janela, simplesmente correu no quarto da avó. A senhorinha nao estava na cama. Foi até a mae que estava parada na porta. E teve tempo de olhar a avó, em pé, como há muito tempo nao a via, em frente à janela. -Vó! Eu devo olhar para você! Sou eu quem olho, vó! disse a menininha nervosa, enquando corria até sua avozinha. A senhora tinha um sorriso no rosto, agora quase tao rosado, como de sua boneca e apontava para longe. Havia um campo com alguns cavalos e muitas florzinhas amarelas que surgiam no início da primavera. Podia sentir a brisa fresca da manha, com a janela aberta e a cortina em leve balanco, enquanto a avó dizia - Hoje ele vem, querida. Mas só pra mim.

A mulher apertava o olhar contra a janela. Nos bracos, um bebê. Na mesa fazendo licao de casa, uma menina de trancas longas. Como fazia todos os dias, tentava enxergar o que a avó vira há mais de vinte anos. A mesma casa, o mesmo campo, o mesmo frio da manha. Toda dia ela ia ver se ele estava vindo. Nunca desistiria de esperar e seria como a menina que nunca deixara de ser, a pular no pescoco dele e rever sua querida avó.

8 comentários:

  1. Cada palavra repleta de sentimentos. Lindo Nina!
    Você nos transporta com a tua escrita. Beijo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vindo de ti Ana, que escreve lindamente de forma romanceada, elogio puro ;-)

      Excluir
  2. Que linda história Nina! Sem mais palavras... comovida!

    ResponderExcluir
  3. Ah Nina, eu gosto quando você escreve esses contos, histórias criadas ou reais, mas tão bem sentidas que nos prendem. |Lindo!
    beijinhos cariocas


    ResponderExcluir
  4. Passei para desejar um Feliz Natal para você e sua família e me encantei com seu belo conto. Como vc escreve bem, querida.

    Bjs,

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mt obrigada querida Norma! pra ti e pra familia, um feliz 2015

      Excluir