02/03/2013

Um pouco da vovó trago sempre em mim

Certo domingo, num de nossos muitos domigos de passeio para os banhos de Manaus, quando tava todo moleque arrumado pra sair, afoito pra pegar o ônibus, da família, sair cantando "se esse carro não virar olê olê olá, eu chego lá..." cheios de baldinhos, biquinis, toalhas de banho, mamães carregando valises com gelo, água, pratos e comidas, loucos de alegria para mais um domingo lindo, de muito sol e areia, num dos igarapés de Manaus, minha avó, que deveria estar doentinha e não poderia ir com a gente no ônibus, aparece perto da saída da turma. E ela me olha com o olhar mais triste do mundo, o olhar mais triste que uma vovó pode ter, e me pede pra ficar com ela aquele dia. Me promete um monte de coisas, pra eu ficar em vez de ir... mas como eu poderia ficar? Tava todo mundo se preparando pra sair, todo mundo animado, todo mundo feliz, tinha irmãos, primos, tios, mãe, todo mundo, e tinha também  salada de legume que as tias cortaram juntas na cozinha da mamãe,  tinha farofa e tinha galinha assada, tinha guaraná, tinha bolo, tinha água geladinha do igarapé, tinha o sol, tinha até cobra pra gente ver no meio do mato, como eu poderia deixar aquilo tudo e ficar na casa da vovó?

Eu disse não pra minha vovozinha, "poxa, vó eu quero ir"... eu não falei, eu não pedi pra ela me entender, eu pensei somente dentro da minha cabeça tudo isso, como uma música que toca por dentro da gente e que ninguém pode ouvir, "por favor vovó, entenda, eu preciso ir, eu sou uma menininha, quero brincar, por favor, me deixa ir, eu volto, volto logo vó, prometo"...

Eu acho que ela não podia ler pensamentos... ela ficou tão triste me olhando de fora do ônibus e ele deu a partida, e ela ficou ainda me olhando, e o ônibus saiu, eu olhei pra ela lá atrás, e acenei, me sentindo a criatura mais culpada da face da terra, me senti tão culpada por escolher a alegria do passeio à quietude do quintal do vovó e  seus bichanos, eu me sentia muito querida por ela, eu sabia que eu era a netinha querida dela, e eu me senti muito feia por dentro, por abusar desse amor, eu sabia que ao voltar, ela me perdoaria, por isso eu fui. Com lágrimas nos olhos.

Chorei ao deixar a vovó ali, me acenando triste enquanto o ônibus ia dando a curva. Mas logo depois, me sentindo melhor, pude aproveitar bem o passeio. A vovó ficou acenando no meu pensamento, e eu já não via a imagem dela na rua, só lembro de brincar muito e ouvir minha mãe falar para eu não ficar triste, que a vovó entenderia depois. Que ela era assim mesmo, teimosa.

E na volta pra casa, fui deixada na porta da casa dela.

E ela estava lá, com o mesmo sorriso alegre de sempre, e me apertou nos braços fortes mas de pele meio  flácida e macia que ela tinha, e eu sentia o cheirinho de lavanda do seu pescoco, e depois do nosso abraço de saudade fomos tomar açaí, ou comer peixe frito, ou quem sabe, comer o tutano do boi com farinha e açúcar, como só ela e eu fazíamos em segredo, escondido da tia Luisa e falar como foi o passeio.
E ela já estava bem de novo. Sorria de novo.
Minha vovozinha querida...
vovozinha querida!

***

Este é um post que foi escrito no meu outro blog. Ele é pra você. Desejo que você sempre tenha alguém lhe aguardando quando voltar...


7 comentários:

  1. Ahh Nina que história linda. Não convive muito com minhas avós, mas agora sinto a sensação de ter alguém me esperando e é a minha pequenina filha, quando chego em casa ela logo diz "Mamãe que bom que você voltou, eu estava com saudades".

    Beijos e bom fim de semana!!!

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  2. Lindo, Nina. Tão bom um amor assim.beijo, minha linda, saudades
    Berê

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  3. Eta Nina... que faz o torrão de açucar aqui chorar...
    Me fez lembrar da minhas avós, o cheior de lavanda, esse lembro bem, uma delas usava aquela"agua de Rosas" (lembra??? er acor de rosa mesmo o vidro e escrito branco).
    Uma avó era mais vaidosa e tinha um genio forte, mas amava mesmo assim... a outra tinha um genio bem melhor, e tem horas que me culpo de não ter dado tanto importância a esta avó... não sei explicar ais foi assim, com uma eu tinha um zelo todo, justo a do genio forte... e a outra não sei por que não tive tanto afago e talvez ela tivesse mais carinho por mim... as duas já se foram a anos, alias não tenho mas avós.
    Seus textos me trazem sempre algo na lembrança...
    beijos flor e bom domingo!

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  4. Qualquer criança ficaria dividida entre um passeio legal e o carinho da vovó, mas o consolo de todas nós é igualzinho ao teu:as avós estão sempre de braços abertos e carinhos prontos pra seus netos e netas.
    Obrigada pelo caro desejo.O mesmo pra vc, Nina.
    Bjkas,
    Calu

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  5. Olá Nina!

    História emocionante... as avós são mesmo mães meladas, como diz o ditado.
    Esse tutano de mocotó amazonense me deixou curiosa.
    As suas reminiscências de Manaus são maravilhosas, adoro!
    Beijão do leste paulista.

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  6. Nina, eu nao tive avó por perto. me lembro que chamava muita gente que eu gostava de avó mas nao tinha a minha.

    Ao ler o teu texto fiquei com medo de chegar ao final e ler que ela tinha morrido naquele dia qdo vc voltou do passeio. Juro que fiquei com o coracao na garganta.

    Fiquei feliz que o final foi feliz, rs.

    Bjos e boa semana

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  7. A minha avó era tão má para mim... deve ser porque eu era adotiva, ou ela era mesmo uma pessoa má.

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