06/10/2008

Pedacos de retalho

Como muitas vovós, minha avó também costurava. Ela tinha aquelas Singer velhinhas, que não era elétrica e tinha o pedal onde a minha velhinha fazia sua ginástica diária.

Eu adorava ficar na casinha dela. Lá tinha também cheiro de café com leite, como na casa da vó da Flor, tinha cheiro de sopa e acaí pela casa também, tinha várias bolinhas coloridas espetadas numa esponjinha, tinha pedacos de pano espalhados, tinha uma netinha apaixonada que observava curiosa uma vovó muito agradável, costurando baby dolls para as netinhas.

Tinha na sala dela, várias almofadas com capa de crochê e cetim em cima do sofá, e tinha esse sofá velho, de couro e tinha ainda tinta lascada na madeira da casa da vovó. Tinha um cemitério, lá longe, que eu podia ver da janela. Tinha por toda a casa, um cheiro de vovó e na penteadeira do quarto dela tinha uns perfumes de alfazema, e uns sabonetes coloridos. Tinha na penteadeira também umas notas de um dinheiro muito antigo, que já não valiam nada, e eu pensava que a vovó era muito rica.

Tinha sempre alguns gatos rondando o quintal, esperando comida que vovó dava a eles. Tinha o cabelo da vovó preso, sempre, todo dia, com o mesmo penteado, e um pentinho delicado preso no coque. Um dia vi vovó de cabelos soltos, achei ela tão bonita de cabelão. Pedi pra ela deixar sempre solto mas ela disse que vovós não usam cabelos soltos.

Tinha essas coisas na casa da vovó e durante o barulhinho do motor da máquina, ouvia-se conversas, muitas conversas:

- "Pinguinho, quando eu morrer essa casinha vai ser tua.
- Que é isso vó? Tá maluca? Não fala em morrer não, a senhora vai viver muito tempo ainda.
- Mas vou morrer um dia minha filha. Tu quer que eu vire pedra é?
- Não sei. Acho que seria melhor do que a senhora morrer. Não fala isso não vó.
- Mas Pinguinho, minha filha, é sério, essa casinha eu quero que seja tua.
- Mas não tem nada aqui nessa casa vó.
- Tem sim, tem esse sofá, tem o fogão, e tem o terreno da casa, o quintal, tem os gatos, e a minha máquina de costura...
- Mas eu nem sei costurar vó.
- Aprende, ora bolas.
- Vó, tá bom, a senhora nunca vai morrer, vai virar pedra e eu posso lhe colocar lá no nosso jardim"...


Mas a vovó não pode virar pedra, não pode ficar no jardim. Quando a vovó foi embora, pro céu, os tios levaram a máquina nova dela, até a nossa casa, lá na vila militar.
A nova, porque a velhinha eu não sei o que fizeram com ela. A nova já era elétrica, mas vovó usou muito pouco, até o dia de ir pro hospital e voltar pra cama, e nunca mais sair dela.

A máquina de costura elétrica também Singer, que a vovó quase não usou, ficou lá em casa, pegando poeira. Então eu cansei daquilo e pedi pra mamãe dar pra uma tia nossa, que faria melhor uso dela do que eu.

Precisei passar por muitas dificuldades pra ver que minha avó tinha razão quando falava: "aprende ora bolas!"

Laura era ainda muito pequena quando aprendi a costurar com minha tia Luisa e vendi roupinhas que eu mesma fazia, na universidade, pra poder ajudar com algumas coisas em casa.

Foram tempos tão difíceis, que depois disso, fiquei traumatizada com máquina de costura e parei, nunca mais toquei em uma máquina.

13 anos se passaram.

E cá estou, eu, com uma Singer, novinha, elétrica, branquinha, que ganhei de presente do meu marido no meu aniversário. Desde agosto que ela estava lá, guardadinha, exatamente como chegou, dentro de uma caixa, eu nem olhava pra ela.

No último fim de semana resolvi encarar meus fantasmas. Liguei a bichinha e passei um fim de semana agradável com ela.

Vó, o barulhinho é outro. Não tem pedal, não é pretinha, não tem gato por perto, nem jérsey pra babydoll, mas tem os alfinetinhos coloridos numa esponjinha, tem seus bisnetos curiosos, tem um bisnetinho querendo mexer no pedal e na bobina, tem uma bisnetinha que tem o seu nome, olhando sem acreditar que a mãe dela pode costurar. Tem a senhora por perto, dentro do coracão da sua Pinguinho de Gente.
Aonde a senhora vó, é eterna.

Fiz uma calca comprida em dois dias, pensei que não sabia mais.





10 comentários:

  1. Nina, lindo.

    Eu ainda vou aprender a costurar, sabe que eu estou matriculada num curso e ainda não "fiz" um tempo pra ir?
    Primeiro era o Pedro que ainda não ia pra escola, depois maridones que me pegou pra office girl, depois preguiça, depois sei lá o que e assim vem se arrastando um sonho.
    Quer saber?
    Dessa semana não passa.
    Vou ligar agora pra saber se dá pra ir amanhã, só não vou hoje porque vou sair pra comprar o material.

    Inspiração. Esse é o seu nome hoje.

    Beijins com Felicidades:)

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  2. Muito lindas suas lembranças, Nina!
    Minha mãe costura super bem e eu... nada!!!! kkkkk
    Continue aproveitando bem sua máquina de costura que sua avó com certeza está muito feliz!
    Beijins

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  3. Que delicia de lembrancas Nina!! Eu viajo tanto!! E fazer a vovo virar pedra para por no quintal e muito gracioso!! seria otimo mesmo ne!? Mas acho que ela virou uma estrelinha ai vc pode olhar para ela la no ceu, sentada no seu jardim! :D
    Eu queria aprender a costurar, e queria uma maquina de costura tbm com um bixinho para por os alfinetes!! Alem de estimular a imaginacao, vc pode economizar, vender, passar tempo, lembrar...enfim, muitas utilidades essa maquininha que corta o tempo pode dar!

    Beijinhos com carinho!
    Chris

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  4. Muito delicado seu post, Nina! Lindo poder participar de suas lembranças! E, tenho certeza que sua vó deve ter ficado muito orgulhosa, da nuvem que ela esteja, em ver a Pinguinho de Gente dela manipulando uma Singer!!!
    Beijos,
    Angie

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  5. Que bonito seu texto, Nina! Tantas lembranças boas...

    Eu sou louca p/ ter uma maquina de costura, ja pesquisei algumas por aqui... mas sempre penso: e qdo terei tempo p/ costurar? e como eu vou aprender? pois aqui, terei de aprender sozinha.

    Mas tem umas roupas que não estão à venda em loja alguma, existem apenas na minha cabeça... então um dia eu ainda compro uma e encaro aos poucos ;)

    Beijo!

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  6. Vó é tudo de bom né Nina?!
    Não conheço uma pessoa que não ame a (as) sua (suas)
    E essa música é beem legal! Estudei ela em história, se não me falha a memória, ele fala sobre a ditadura aqui no Brasil!

    Beijos*

    E finalmente, consegui comentar!!

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  7. OI, Nina!!

    Ai que bom poder ouvir falar de avó hoje aqui!!!!!!!!! Amo tanto a minha, mas tanto, que PRECISO escrever um texto para ela...Ela nos deu um baita susto esse ano, mas agora está muito bem aqui conosco, e continuamos almoçando juntos, TODOS os domingos...
    Vou escrever sobre isso ainda essa semana, você me inspirou!!!

    Beijo muito grande, com gosto de um biscoitinho chamando Raibe que só ela sabe fazer daquele jeito que derrete na boca!!!!!!

    Rê.

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  8. NINA


    o sweu blog estácom 3 colunas e uma,aúltima dadireita nao aparece nada.
    caso vc precise de ajuda e eu possa ajudar....
    contas comigo
    beijos e dias felizes

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  9. Que lindo Nina!!
    Eu era louca pela minha vó!
    A dona Tuti! Tão louca que uma semana depois que ela morreu, eu tatuei o nome dela no meu braço, com umas estrelinhas.
    Foi a forma que achei de homenageá-la e ter ela sempre comigo!
    E de agradecer tudo que ela fez por mim!
    Que bom seria se as vovós não morressem, né?
    E a casa da minha vó tinha um cheirinho que vai ficar prá sempre na memória!
    Bjo linda!!

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  10. Sabe gente, esses dias to mt, demais, exageradamente sentimental. será que á tpm dando os sinais??? vcs nao imaginam o qt chorei com cada comentário, sério, chorei horrores. com cada um. saber que vcs tbm tiveram vozinhas especiais,aaiiii como isso é bom! ooohh Deus, porque to tao sentimental???? lagrimas, lagrimas... sinto falta da vovó, snif snif. mas a vida continua!

    soninha, que maravilha saber que vc ja vai comecar o curso, vai mesmo, é uma terapia. o mesmo pra vc querida silvinha, se vc tem ideias na cabeca, já é um bom sinal que vai arrumar tempo. compra a maquininha, tem umas baratinhas pela net.
    bjs a todas. grace, vou já lá contigo pra pegar dicas. Rê, vou ler viu?? bjsssss
    inspiracao como disse soninha,é a palavra do dia!!

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