06/01/2017

The woman in black

Ela tem a pele bem maquiada, com uma base super potente, e os olhos pintados de forma carregada. Os cílios muito longos e muito falsos. Usa sombra forte, e escurece e engrossa a sobrancelha de uma maneira quase perfeita. Ela fica linda com toda essa extravagância, confesso. Algumas vezes, ela usa lentes coloridas, nuns tons de verde ou azul que combinam com sua pele, que por sinal, é muito pouco vista. Às vezes, só posso ver o tom da sua pele, imaginando-o, fazendo minha fantasia criar a cor. É difícil ver a pele, embaixo de tanta maquiagem e panos, já que seu suposto belo rosto, está quase todo coberto. 
Nao é uma burqa cinza e suja que ela usa, apesar de que pareça muito com uma. Mas um pano preto, a niqab, que cobre seu rosto por completo, e que algumas vezes, tem uma pequena linha vertical que separa seus olhos, e que prende a base do nariz, ao início da testa, como uns óculos. Fica estranho. E quadrado. 
Foto Tumblr

Observo-a comer num restaurante. Algumas vezes, ela come por dentro do pano, algumas vezes, levanta discretamente o pano por cima da cabeca, como se fosse um capuz, mas isso é mais raro. 
É discreta, diferente dos filhos, que parecem fazer tudo o que desejam, principalmente, se forem homens. 
Ela passa por mim e me olha. Ela quase sempre me olha. Quando nao tem o rosto todo coberto, posso ver um discretíssimo sorriso a mim direcionado, mas nao sei se esse olhar sorridente é de encanto, de inveja, ou superioridade. Mas sorrio discretamente de volta. Nunca olho para os homens, tenho medo deles... Às vezes, vejo dela, um olhar severo, mas geralmente, esse olhar, nao vem com sorriso. E nao olha para mim diretamente. É um olhar quase arrogante, ou de pena, e de uma autoridade me corrigindo. "Pobre mulher ocidental!" Eu tenho pena dela, e ela, de mim. Diz que eu sou vítima, quando eu penso que ela é quem é. Ela me vê como vítima da sociedade em que vivo, porque meu corpo é visto por todo mundo, e eu a considero vítima, por deixar, obrigatoriamente,  que só seu marido veja as roupas caras e chiques que ela compra. 

Na loja, me pergunto, para quem afinal, ela compra tanto, se, em todo lugar que vai, a roupa que veste está coberta por aquele monte de pano preto? Só quem a vê vestida com as roupas novas, sao seu marido e filhos? E quando ela vai a uma festa, ninguém pode vê-la vestida com suas marcas caríssimas? Sei que ela pensa o mesmo de mim: "essa pobre mulher, compra para os outros verem. Eu compro para mim e para meu marido somente". Me pergunto a mim mesma, quem é a pobre mulher, afinal? Quem é a vítima?
A vejo caminhando pelos corredores do shopping center, carregada de muitas sacolas, três ou quatro filhos e o marido do lado. Ele a acompanha em toda compra. Ela vai ao provador, que aliás é o único que vi na vida, totalmente fechado, de cima abaixo, e sai para ele ver, e espera sua aprovacao, mas isso, somente, se ela for menos rígida. A maioria, nem experimenta as roupas que compra. No meio da loja, ela lhe mostra algo, ainda no cabide, ele olha tudo, tecido, comprimento, transparências, examina com cuidado e diz com um balançar de cabeca, se aprova ou nao. E ela compra, ou nao. É ele quem decide tudo! Nessa hora, agradeco nao ser ela, detesto comprar coisas com outras pessoas. É a minha opiniao, e o que vejo no espelho sozinha, que valem.  Mas nao deixo de admirar esse momento "romântico" entre eles dois, num país onde a homens e mulheres, nao é sequer permitido, andarem de mãos dadas em público!

Nao me agrada, porém,  ver como ela quase nao consegue se sentar à mesa com tranquilidade. Rodeada de filhos, vestidos de roupas iguais, inquietos e sempre famintos, com um marido de óculos escuros, barbado e metido a sultão sentado ao lado, ela fica para lá e para cá, servindos-os: vai buscar seis ou sete paezinhos e croissants para os filhos, o café e o pao para o marido, busca o chá, vai e volta uma dezena de vezes, sozinha, e quando se senta, tem que fazer o malabarismo com os panos, e o outro filho já quer mais suco e o marido pede mais café, e outro omelete. E ela se levanta novamente. Ele, o sultão, o califa, o sheik, fica lá, de cara para o sol, enchendo a barriga e dando pequenas ordens aos moleques. E ela, ah, ela mal se senta...

Na praia, ela vai toda de preto, obviamente. Essa deve ser a parte prática da coisa, é sempre a mesma roupa! O marido, fica só de bermuda, de peito hiper peludo, orgulhoso como um pombo, com sua barba bem feita, sorriso de orelha a orelha, até que me enxerga, e fica sério. E olha que estou com roupa normal na praia, me recuso a usar um maiô ali.  Ele vira de lado, com arrogância. E ela, a mulher de preto, entra na água - o que é muito raro - com todo aquele aparato de tecidos, e sai respingando água salgada, e fica esperando secar ao sol, como um pássaro negro, os panos sacodem ao vento como asas, que torço discreta e silenciosamente: bem que ela poderia voar... A areia gruda na roupa, que está enxarcada e parece nunca secar. Tenho pena dela. E ela tem pena de mim... eu sei! Eu noto quando ela passa por mim em direcao ao banheiro, que é separado para homens e mulheres, em construcoes diferentes e distantes entre si.      
Lembro dela quando ouço o guia turístico explicando sobre o verão. - Veja, os carros sao na sua maioria em cores claras, muitos, muitos carros sao brancos por causa do sol. - E eu penso nela, sempre vestida de preto, mesmo no escaldante verão de 49 graus! Os carros sao brancos, as roupas dos homens são brancas e ela.... always in black! Digo ao meu marido que se fosse homem, naquele país, só usaria a roupa tradicional. Como eles ficam lindos e esbeltos naquilo! Mas ela deve estar sempre de preto, nao importa o tempo lá fora. Certa vez, um egípcio me contou que as mulheres usam preto, por que essa cor é vista facilmente no deserto, e se uma mulher for atacada, ela pode pedir socorro, sendo vista rapidamente. Que estranho! De preto, no deserto, ela também será atacada por ser vista mais facilmente. Ou não? Mas, espere! Nós nao estamos no deserto agora! Mas, sim, no meio de prédios altíssimos e reluzentes, em meio a carros chiquérrimos, lojas caríssimas e pessoas milionárias! E ela ainda em preto, toda coberta, como se fosse uma nômade numa tempestade de areia...
Usa, inclusive,  algumas vezes, luvas pretas, sapatos pretos fechados e por cima dos panos, óculos escuros. Mas algumas vezes, nao! Ela usa sandálias altas e com strass,  jóias caras nas maos e bolsas elegantérrimas, de estilistas famosos. É linda, mesmo tendo uma cabeça como a do ET, de Spielberg! Imagino seus cabelos muito longos, que só o marido e filhos podem ver, presos num coque, coberto com os panos pretos, e a imagino entrando num salao de beleza, que descobri existirem escondidos, quando a funcionária de uma loja me disse, quase cochichando, que ali no shopping havia um, mas que só poderia me levar em segredo. Foi só ai, que comecei a ver na cidade, vários saloes de beleza, cobertos com um tipo de insulfime, onde ninguém pode ver o que acontece lá dentro. 
Enquanto isso, os saloes masculinos sao totalmente abertos, iluminados e totalmente envidraçados.

Sim, os homens parecem seres iluminados. Ela, por sua vez, parece, a meu ver, viver na escuridão, ludibriada pelo brilho do ouro e pedras preciosas. Mas, é a mulher de preto, quem diz ter pena de mim. E eu, constantemente, oro ao meu Deus, por ela: retire o véu Senhor, retire o véu que a impede de enxergar!


***

Observacoes minhas, de várias mulheres de preto, em Dubai

"Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens"

2 comentários:

  1. Amo a forma como descreve as suas percepções de pessoas e lugares...me senti olhando essa mulher de preto.

    ResponderExcluir