29/01/2017

Quando penso em voltar ao Brasil...

Há alguns anos, uma tia-avó do meu marido, de 94 anos, nascida na República Checa e que veio morar na Alemanha ainda muito jovem, me perguntou se eu sentia saudade do Brasil. Ao ouvir minha resposta negativa, ela só se ateve a falar: espere, com o tempo a saudade virá. 
Nao dei importância ao que ela disse, e até mesmo dei uma risadinha quase arrogante: "ela nao conhece o meu país!".
Até anteontem, esse tempo ainda nao havia chegado. Mas ontem, finalmente, ele veio.

Muito provavelmente, estou escrevendo sob efeito dos hormônios, que me deixam meio que fora do meu normal, todo santo mês. "Mulher é bicho esquisito", como diria Rita Lee, "todo mês sangra". Sangramos na alma também, em alguns desses meses...

Sempre disse a mim mesma que nao queria ser como muita gente que já encontrei aqui, infeliz por morar longe do país em que nasceu, falando mal da Alemanha por anos. Sempre enchi a boca pra falar "se está infeliz, porque nao volta?", como tantos outros dizem. Mas sabe? Falar isso é muito fácil! Há um ditado mais ou menos assim: você nao pode falar da vida de ninguém, a nao ser que calce os mesmos sapatos e ande o percurso que esse alguém faz todo dia. 
Nao sabemos porque alguém permanece aqui, mesmo sendo infeliz. Há certamente, várias razoes para isso. Eu fiquei até agora neste país, porque sempre me senti muitíssimo bem, e continuo me sentindo, mas ontem, quando a vontade de voltar realmente ao Brasil, pela primeira vez em quase onze anos, se acercou de mim, percebi que nao poderia voltar! Nao sou somente eu quem decide algo assim. Sou casada e tenho um filho pequeno que nasceu aqui, e entendo que nao poderia nunca decidir algo tao importante como isso, sozinha. "Sozinha", assim como decidi  quando vim para cá. 
Ontem me vi num beco sem saída. E lembrei das decisoes que tomamos na vida, tao cheios de certezas, e que um dia, certamente, nos arrependeremos.
Sair do seu país é uma coisa extremamente complicada. Voltar, é ainda mais. Acredite!

Nos sentimos estrangeiros, aqui e lá. Nao fazemos parte realmente de nenhum dos dois lugares. É bonito e chique para alguns,  falar que somos cidadaos do mundo. Mas essa realidade, é na verdade, triste. Se adaptar a qualquer lugar é legal, mas nos faz desligados de elos que antes, nos eram importantes. Perdemos o elo com a família, por exemplo. Eles vivem coisas que nao vemos, riem e choram, e nós só somos informados depois, e o que dizemos é sempre ouvido mais tarde, quando o riso e o choro já passaram. Nos sentimos perdendo a importância. Devagar, vamos sendo esquecidos, é como quando alguém morre. Morremos todos aos poucos... enquanto eles que ficaram, vao levando suas vidas como sempre a levaram, e vao nos esquecendo. "- Ah que dramática, tu és, Nina Rosa! Isso acontece com todo mundo", você diria. 
Nao! É diferente! 
Aqui estamos sozinhos, você aí, ficou com o resto do que antes, era nosso também. A mae continua morando perto de você, você ainda vai comprar uns paes na padaria, ela ainda vai fazer o café da tarde e voces irao receber aquela amiga, que mora perto e que nem precisa marcar na agenda de ir a casa de vocês. As irmas vao fazer compras juntas no natal, vao reunir num domingo para fazer um churrasco, vao viajar juntas à praia quando o salário der, vao fazer fotos de festinhas com amigas, vao encontrar uma prima que mora no outro estado, vao tomar banho de piscina/mar/rio, assar um peixe, vao passear de barco e tomar uma cervejinha e postar fotos com seus belos sorrisos no facebook, vao encontrar por acaso, no shopping aquela nossa amiga de infância e vao conversar tomando um cafezinho com pao de queijo, enquanto seus filhos brincam no playground.
Aqui, nós estamos sozinhos! Olhando o tempo passar entre paredes frias, com um céu cinza e sem sol, tomando chá para se aquecer e talvez, chorando ou resmungando de saudade. Coisa que nunca nos acometeu antes. E você lendo isso, nao vai entender nada, ou talvez, ria de mim dizendo: Toma-lhe! Quem mandou ir embora, sua metida?! 
E você vai lembrar de quantas vezes, sentiu inveja da nossa vida aqui, viajando para lá e para cá, fazendo fotos de museus, praias, cidades e lugares lindos, mostrando em fotos, que você olha meio de lado, aquela torre, aquela ponte, o castelo antigo, a cor da areia no deserto, a brancura da neve, o nascer das flores na primavera, sem saber que, quase sempre, há inverno em nós... 

Sabe de uma coisa? Você NUNCA deveria sentir inveja de nós! Nós é que sentimos saudade do que você vive! Mesmo que ao voltar em visita, notemos: eles estao vivendo do mesmíssimo jeito que eu os deixei! 
Sério! Acredite: nós sentimos falta disso, dessa mesmice, mesmo que ela nos pareça melancólica!
Sentimos falta  do sonho que vivíamos todo dia: um dia vou embora do Brasil! Agora, que finalmente estamos aqui, queremos voltar, mas, sabe? Nao dá! Agora nao... nós nos perdemos, realizamos tudo o que queríamos, o sonho aconteceu, e agora?

Uma das coisas boas de ter uma vida com Deus, e se sentir nas Suas maos e sob Seus cuidados, 100%, é que, na hora em que precisarmos realmente, tomar decisoes importantes, sabemos que já nao decidimos sozinhos, e descobrir que isso é bom. 
E que na verdade, mais do que estrangeiros, somos peregrinos...
Eu nao sei, sinceramente,como alguém que nao vive com o Senhor, se sente quando esse momentos de saudade chegam...

Eu sei que já estou recomposta, agora que cheguei ao fim do texto. Escrever longamente tem suas vantagens... Olhei agora para o céu, e ele se tornou azul.
É Ele quem cuida de mim e dos meus sentimentos, e me recoloca no meu lugar. Gracas a Deus por isso.
Menos um dia...

* * *
ps. Nao generalizo quando escrevo "nós". 
Nao estou falando de você que se sente maravilhosamente bem no estrangeiro. 
Eu tbm me sinto...  Isso foi só um desabafo.
;-)

10 comentários:

  1. seu post está maravilhoso.......... em 3 anos fora, já sentia tudo isso...minha família se reunindo e eu só lendo por emails...as ruas desertas e eu imaginando como seria se todos estivessem por lá....é realmente difícil para muitos e para outros é uma maravilha.Se voltasse para cá, depois de um tempo, começaria a sentir uma imensa saudade daí porque nunca mais será a mesma,sempre sentirá falta do que teve e está faltando....demorou muito para eu voltar ao normal e até hoje sinto saudade do que vivi por lá....Já aceitei a situação rsrsrsr..vou levar a felicidade seja lá onde eu for e com vc será assim mesmo...será feliz em qualquer lugar.....beijokas

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    1. "voce nunca mais será a mesma" é bem isso, Evinha!
      E sinceramente, já nao sei se isso é bom :-(

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  2. Estamos prestes a embarcar e apesar de ter a certeza que é isso que precisamos fazer eu sinto receio de viver o "não pertencimento" do local. Vou de coração aberto, oração constante e pronta para viver o novo, criar meus filhos em outro idioma e longe dos avós. Mas sei que as mudanças em nós serão inevitáveis. Lá no fundo, desejo pertencer ao segundo grupo, que eu me encontre realizada na decisão que tomamos.
    Bjs

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    1. Poxa Maira, queria poder te dar uma palavra de incentivo, mas ultimamente ando meio desanimada com a vida no exterior... tu vem pra Europa?
      Bom, querida, a parte boa é que tu vens com marido e filhos, certo? Pelo menos de solidao vc nao vai sofrer. Eles sao nossa familia aqui! Ficar longe dos avós é algo realmente, que vai fazer falta, mas vcs se adaptam.

      Desejo alegrias e que vcs gostem muito! Se o Senhor os ajudou nessa decisao, Ele continuará ajudando em todo o resto ;-)

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    2. Vamos para Itália, pelo menos amamos o lugar (como turistas pelo menos :-)). Marido vai na frente e depois de algum tempo iremos nós. Vamos seguindo em constante oração.
      Super beijo

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    3. A Itália é MUITO linda, Maira! Desejo alegria por lá!

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  3. Você conseguiu escrever exatamente todas as minhas emoções nesse post, é exatamente assim que eu me sinto, morando fora há 11 anos. Eu já nem sei mais como lida com isso. Bjs

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    1. Tem dias mais complicados, tem outros, menos... a gente vai levando, né Dany?! Pensando nas nossas prioridades: o que é mais importante pra gente? Porque ficamos? Por que saímos?
      Uma coisa que acho importante, é nao idealizar, nao fantasiar...fácil falar, como eu faco agora, difícil, porém, na prática.
      Fica bem,querida!

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  4. Olá, Nina!

    Interessante o seu texto, Nina. Não vivo essa situação, mas, imagino como deve ser difícil lidar com ela, pois, é delicada. Meu filho tem esse sonho de morar fora, inclusive já se movimenta pra isso, e eu, vez por outra, reflito sobre muito do que li aqui, no seu depoimento. Há os prós e os contras em toda decisão, mas, você tem algo precioso que torna tudo mais fácil, sua fé. Grande abraço.

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    1. Poxa Socorro, espero que seu filho fique legal. Tem mts mais prós, do que contra, em passar um tempo fora, sabe? Nem tds conseguem lidar bem com isso... mas a esmagadora maioria, "sobrevive".

      E sim, sem fé seria muito mais complicado. A fé me dá a certeza de que o meu verdadeiro lugar nao é aqui nem lá, e nem em outro lugar nesta terra...
      ;-)
      Um abraco, querida

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