26/01/2017

João e Maria

Ele chegou como sempre, todo serelepe no portão de casa, gritando o nosso nome. Os nomes das três meninas da casa. Saímos todas ao mesmo tempo. Ele tinha chegado das férias!

Como é duro quando os amigos viajam e a gente não, e como eles demoram a chegar! A rua C ficava vazia, o eco era ouvido no fim da rua, e o som era de saudade. Nada tinha muita graça sem os melhores amigos por perto. Mas ele chegou! E como sempre, cheio de novidades. O cabelo levemente ondulado, os olhos vivos e puxados,  a boca cheia de dentes (sempre me pareceu ter mais dentes que o normal), vestido com sua indefectível camisetinha regata, lá estava ele, mostrando a pele magrinha, bronzeada da praia, cheirando a mar e vibrando nas histórias que tinha para contar. Histórias de longe, que nos deixavam com a imaginação ativa, viajando pelo menos, poeticamente e  dentro da possibilidade, das palavras de Buarque. 

Nunca tínhamos saído de Manaus e o mais longe que já tínhamos ido, fora até o Planeta dos Macacos! Um bairro muito longe, quase que no interior do estado, onde havia uma casinha de madeira e telhado de palha, e que uma tia distante, morava. Bairro que às cinco e meia da tarde, por incrível que pareça, quando o sol começava a baixar no horizonte, sentíamos até um pouco de frio, na quente Manaus! Casa  que tinha um monte de árvore no quintal, e onde até hoje me lembro, ficávamos as crianças, na varanda de madeira, ralando macaxeira para fazer bolo.

Estávamos agora, em frente a sua casa, sentados no murinho baixo, de costas para o jardim que sua mãe com tanto zelo mantinha, olhando para ele que nos ensinava uma cancão. Repetia a fim de nos ensinar, sem parar, aquele conjunto de palavras melodiosas, tao apaixonadamente, que nos fez amar  João e Maria, na hora! "Agora eu herói, e meu cavalo só falava inglês. A noiva do cowboy era você além das outras três..."
Nosso amigo conheceu a cancão, no Rio de Janeiro, cidade que para nós, era proibida, não só financeiramente, pois nossa mãe nunca poderia pagar a Varig para carregar com suas asas, cinco filhos; mas também, porque ali moravam as "filhas malvadas do nosso padrasto" e temíamos o Rio com um medo velado e confuso. 

Mas ouvi-lo cantar com aquela alegria e motivacao que só vinha dele, só para aprendermos e cantarmos juntos, nos fazia a todos, naquele instante meio mágico da minha memória, pessoinhas especiais. Era como se estivéssemos num cenário de filme, porém, num tempo de fadas e príncipes, quando não havia vilões, quando não entendíamos de verdade, o que a música e o tempo daquele tempo, realmente simbolizavam. Éramos apenas crianças simples, alegres e saudáveis, e que entendiam de amizade e companheirismo.
Morávamos no Amazonas, onde tudo parecia distante do resto do país, que fervilhava nessa época.  Éramos filhos de militares nos anos 80, sabíamos bater continência, marchar, conhecíamos todos os hinos nacionais, e tínhamos o CIGS, o zoológico mais legal, dentro do quartel, praticamente  no nosso quintal. E tínhamos mangueiras e ladeiras, as mais incríveis, para descer de patins e bicicletas, e agora, pois bem, tínhamos também, João e Maria, na voz do Macedinho. O menino mais simpático e delicado, que eu já havia conhecido!

Ele que me levou para conhecer a lagoa azul, onde moravam nossas sereias imaginárias; ele que me incentivou a usar garfo e faca ao comer, mesmo sem querer; ele que me ensinou a cantar: "esta noite eu tive um sonho, um sonho muito belo, sonhei que estava no Sitio do Picapau Amarelo, numa casa toda branca entre o ribeirão e o mato, encontrei os personagens da história de Lobato..." ele, que me deu uma cartinha de despedida, dizendo que eu não era como as outras meninas fedidas, e que até hoje, guardo comigo. Há mais de 34 anos!

Ele, a quem sempre serei grata por ter feito parte da minha doce infância.  
Meu doce amigo, Macedinho.



A canção nos acompanhou por muitos anos. Minhas irmãs e eu nunca esquecemos a letra e  quando cantávamos, era dele que lembrávamos...

3 comentários:

  1. Que lindas lembranças. Postei essa música semana passada. Adorável.
    Beijo, Nina.

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    1. Sim, Lúcia, eu vi na tua página, e foi ela que me fez lembrar, uma vez mais, esse episódio ;-) Obrigada!

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