22/04/2015

A minha avó

A minha avó tinha pele macia e molenga, cabelo grisalho, riso largo. Olhinho pequeno, testa alta. Tinha marcas de vitiligo nos tornozelos. Pele branca. Maos grandes. 
Vó Laura! 

Caminhava decidida quando fazia as compras na feira. Conhecia todo mundo no bairro. Eu era louca por ela. Descia a rua de sua casa que era numa ladeira e ia falando com as vizinhas, a todos conhecia. Pegava na minha mao e me levava para passear e ia explicando tudinho o que eu queria. Pra mim ela era grande, pois sempre me chamava de Pinguinho de Gente. Tinha maos de fada quando costurava pras netas camisolinhas de jersey. Era boa contadora de piadas, me fazia rir. Imitava papagaio perfeitamente, na hora de dormir. Era minha maior companheira na hora de comer bobagens. A casa dela cheirava a sopa, e acai. Sempre tinha panela no fogo e gato no jardim. E um sofá de couro velho e almofadas de crochê. A porta do quarto dela, dava pra uma varandinha minuscula, de onde eu podia ouvir passarinhos. E lá ficava sentada a tia que pintava as unhas das madames com uma caixa cheia de esmaltes coloridos. O banheiro era fora da casa, a água era fria.  Tinha o homem que todo dia, fazia barulho na serraria. Sempre ao meio dia! O sol era de lascar, no quintal da minha avó, mas no fim da tarde, era lá onde eu mais gostava de estar. Os tios se reuniam, em volta da minha avó, ela era nosso maior elo. Fazia tempo nao pensava nela, nao quero esquecer como ela era... a sua voz nao lembro mais... mas sei que era banguela. De cabelos lisinhos, como uma india bonita. De presilha no cabelo. Cabelo que era longo, eu sei, um dia eu vi. Sempre trazia preso. Usava sempre vestidos, que iam ate o joelho, nunca vi chique. Era simples. Delicada e bruta, doce e azeda. Nunca amarga! 
Quando esteve internada, no hospital do cancer, meu tio me levou pra visitá-la. Era meu aniversário de 12 anos. No quarto, assim que eu entrei, ela fez as velhinhas doentes, cantarem parabéns. Eu morri de vergonha e ela disse que quando saisse dali, me faria meu babydoll, presente constante pra toda netinha. Vovó tadinha, saiu do hospital naqueles mesmos dias, e morreu dois meses depois. Ainda lembro da sua carinha me prometendo naquela cama de hospital... "quando sair daqui Pinguinho te faco um novo babydoll"... 

Sinto sua falta vovó.

12 comentários:

  1. LINDA E CARINHOSA LEMBRANÇA E HOMENAGEM.BELAS RECORDAÇÕES! BJS, CHICA

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    1. Obrigada Chica, recordacoes é o que tenho mt ;-)

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  2. Tua descrição é tão carregada de sentimentos, tão cheia de amor que marejou meus olhos!
    Lindo o teu recordar. Beijo.

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    1. Imagina como eu fiquei qd escrevi isso? me deu uma baita saudada dela :-(

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  3. Que amor o seu por esta avó, Nina! Sempre você a relembra, conta histórias com ela e gosto de ler, você me faz visualizar direitinho como sua avó era, e de tudo que li, a imagem é de uma pessoa linda, mesmo banguela. rsss
    Olha, nesta minha andança pelo nordeste, pude constatar algo que já vinha observando há tempos, ou seja, a relação familiar do povo nordestino e nortista com seus velhos. Nos restaurantes que fui, sempre tinha a família e a avó ou avô presentes. Acho isso o máximo! Aqui no sudeste não é tão comum, infelizmente!
    um beijo carioca e carinhoso.


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    1. Oi Beth, é, acho que isso é uma caracteristica mt nossa mesmo, somos mt ligados a familia no norte.

      ah, ela usava dentadura ;-)

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  4. Deus cuida de todas as vovos, certo?! Pfff voce me faz chorar, quantas emocoes e sentimentos lindos, nao sei o que dizer, ta tudo entalado na garganta.

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  5. Que linda essa descrição minuciosa de tuas memórias! Eu por exemplo, não convivi com minhas avós, por terem morrido antes de eu nascer. Mas tive uma tia a qual eu amava-a muito, sofri quando foi para outra cidade, nessa época eu tinha quatro anos. Continuamos convivendo apesar disso e eu sempre adorando-a, até o dia em que a vi fazer um comentário sobre meu jeito estabanado de ser, no qual na minha meninice vivia correndo, rindo alto, normal para meus dez anos, mas isso me chocou tanto, que morreu esse "adorar" e hoje apesar de anos que ela se foi, eu perdoo-a mas nunca mais tive aquela adoração por ela. Então me ficou uma lição de vida: Cuidado com o que falas a respeito de uma criança, mesmo que seja um brinquedo de mau gosto, nem sempre as crianças sabem interpretar e os sentimentos perdem o brilho! :D Lindo seu blog, sigo sempre!

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  6. Adórei queria que vcs veja esse videio https://youtu.be/TldDIIUFjIE

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