07/01/2015

A luz foi embora

Como todo fim de ano, passamos o natal na casa dos meus sogros. Ficamos cerca de quatro ou cinco dias por lá. Há uma coisa nesses encontros que gosto mais do que as aparentemente infindáveis trocas de presentes, que eles amam fazer. É que gosto de ter a família mais perto. E nao me refiro exatamente aqui aos sogros ("familia" na Alemanha é somente considerada os pais e filhos, primos tios e até avós nao sao contados realmente como tal) mas a família que está aqui em casa, essa família de todo dia. Enquanto estamos lá, os pais do meu marido, em consideracao a nós, nao ligam televisao. Passamos os dias comendo muito bem (minha sogra é uma ótima cozinheira), dormindo mais do que deveríamos, jogando baralho e outros joguinhos, fazendo algumas caminhadas no frio e conversando bastante. Os filhos, quando descem de seu quarto, vem com um alegre bom  dia  e ao subirem,  dao em cada um, um abraco de boa noite. Enquanto estamos juntos na sala ou no jardim de inverno, estamos sempre perto, nos olhando nos olhos, conversando e nos abracando. É um ambiente saudável e terno.

Nao significa que em casa, na vida cotidiana, isso nao exista. Sim, muitas vezes, o filho chega em casa da escola e vem me dar um abraco. A filha sempre passa um tempinho conversando comigo na cozinha e o marido todos os dias que chega em casa, me dá um beijo. Mas entao, todos se afundam em suas próprias vidas. Ele vai pro quarto e parece que se torna invisível em frente a televisao ou estudando para um teste. Ela também, se entoca no quarto olhando pra tela do computador ou para um livro. Marido senta no sofá e de vez em quando, comenta algo enquanto faz atividades do trabalho trazidas para casa com a tv ligada. 
Ainda acho tudo isso um bocado estranho, apesar de saber que a vida normal é assim. E é por isso que gosto tanto desses dias na casa dos sogros. Lá, ninguém tem nada além de uns aos outros. Raramente ligamos o computador. TV nem parece existir e ninguém fica louco pra sair dali gritando desesperado pra saber as últimas notícias ou dar uma curtida na foto idiota do colega no facebook. 

Ficamos somente nós e os outros que de alguma forma, se tornam nós também. E gostamos disso.

Me parece muito com o tempo em que éramos meninos e a luz, lá em Manaus, ia de repente, embora. Antes poderíamos estar vendo tv e no primeiro instante, naquela escuridao horrível, a primeira coisa que fazíamos era xingar a Eletronorte. Ao notar que a energia nao viria tao cedo, nos restava brincar. Geralmente, o mais bacana era acender velas e fazer brincadeiras de sombra com as maos, contar historinhas de terror ou ir pra calcada se ainda fosse cedo, encontrar com alguns amigos e conversar, ou somente, ir ao quintal olhar as estrelas que pareciam escondidas enquanto havia luz na cidade. E era tao bom aquele momento, que muitas vezes, ficávamos tristes quando a luz voltava. E nao era raro as criancas desligarem tudo de novo pra continuarem com as sombras das velas... 

Às vezes tenho também vontade que a luz acabasse... você nao?

5 comentários:

  1. Neste vídeo eu conto a experiência com a falta de luz quando lecionava em uma pequena cidade de Goiás. Aqueles momentos sem luz foram a salvação de muitos alunos... http://youtu.be/wpzjm-V7eUk

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    1. Dá mesmo pra aproveitar de várias formas a falta de luz ne Mario? Vc aproveitou da melhor maneira possível.
      Aqui o link direto:

      Posso orar no início das aulas?

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  2. Oi Nina, td bem? Feliz 2015, sempre que posso dou uma passadinha aqui! O mais engraçado é que hoje acabou a luz em casa, e eu e meu esposo ficamos brincando do Stop kk!
    Hoje sou casada e não tenho filhos, mas ler este post me recordei dos cachorros e dos patinhos que fazíamos na casa da minha mãe na sombra da vela , com meus 4 irmãos . E senti uma saudade enorme deste tempo. Quando puder de uma passada no meu cantinho!

    Bjs Aline

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  3. E verdade mesmo, Nina... acho o final de ano por aqui muito gostoso e aconchegante, e, o que faz isso ser assim especial é o contato bem proximo com a familia e o estar dentro de casa so aproveitando a companhia um do outro. Geralmente vamos ao Brasil em dezembro, mas acho o Natal aqui bem mais gostoso. No Brasil estava um calor daqueles, deixa a gente mais disperso. Beijokas com saudades!!

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  4. Nina... por um lado, pensar que a luz acabou me dá arrepios pois moro no 20 andar e subir tudo isso me mataria.
    Mas por outro lado, pensar na falta energia equivalente à falta de estímulos modernos (telefone celulares, televisão etc) me abriria um leque enorme de possibilidades tão simples como um papo desmedido à luz de velas.
    A mesma tecnologia que nos abre mil possibilidades, nos rouba milhões de minutos e momentos.
    SOS...
    Bjos

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