10/09/2014

Sou uma crista decepcionada comigo mesma

No dia em que estive com as criancas, no jardim da prima do meu marido, nao havia somente criancas ao meu redor. Havia duas pessoas mais velhas, que nao sairam de perto de mim. Uma delas, a sogra da prima, que estava tentando curtir um momento de leveza no seu dia a dia, carregado de dor e sofrimento, por ter um marido com câncer em estado muito avancado em casa. E um outro senhor, padrasto da prima. Um homem muito brincalhao e de certa forma, zombador, que as pessoas nunca parecem dar muita importância pelas bobagens que ele fala. 

A senhora, eu conheci aquele dia, é muito simpática e parece ter me amado desde o primeiro olhar. Sorria pra mim desde o início, quando eu ainda nao sabia quem ela era. Comecou a falar comigo, e de repente parecia que já nos conhecíamos há tempos. Ele, de alguma maneira, sempre entrava na conversa e pra onde eu ia com a senhora, ele ia atrás. Quase no fim do dia, descobri a história do doente marido daquela senhora, e tentava em vao, falar com ela a sós. Nunca dava, porque o brincalhao sempre estava por perto. Nao sei a razao, mas ele estava o tempo todo grudado em mim. Onde eu ia, ele ia atrás. Eu queria um momento sozinha com aquela senhora, queria poder ter falado do amor de Deus pra ela, queria muito ter dito a ela, que gostaria de visitar seu marido, mesmo que no outro dia estivéssemos voltando pra nossa casa. Queria contar a ela sobre a Salvacao que Jesus nos forneceu a todos os que cremos nEle. Queria trazer algum tipo de alento ao coracao daquela mulher e talvez, do seu moribundo marido, mas nao via espaco. 

Tenho que fazer aqui uma pausa pra confessar: eu sou travada demais! E isso me dói tanto. Tenho tanta vergonha de mim e dos meu medos. Tenho medo de incomodar as pessoas. Especialmente aqui neste país, onde todo mundo está sempre falando que devemos respeitar as opinioes dos outros e sua decisao de nao ultrapassar os limites individuais de cada um. Ouco o tempo todo desde que cheguei aqui, que certo assuntos nao cabem em determinados lugares, que nao se pode empurrar goela abaixo, nossas crencas. Obviamente, isso nao é o que tenho em mente, e isso pode ser considerada uma regra básica de etiqueta em "qualquer" país do mundo. Mas nao é disso que estou falando. Falo do medo de incomodar as pessoas que mesmo aparentando estarem acabadas, entristecidas, sem rumo, parecem nunca estarem interessadas em Deus. Todo o tipo de assunto é permitido nas rodas em que frequento (e é mesmo!), mas Deus nunca foi um tema presente em absolutamente lugar nenhum! Como eu posso comecar esse assunto, se nao sei quando ele se encaixa? Quase sempre quando tento, vem alguém fazer um comentário maldoso, como me chamar de fanática, um que ri de mim e da minha fé ou outro que comeca com uns comentários e perguntas tao estranhas, que eu nao sei nem mesmo como responder de tao absurdas! Me sinto tao estúpida por nao enxergar brecha alguma!

Enfim, foi esse temor que me prendia a língua o tempo todo aquele dia. E tinha aquele senhor colado em mim, que nao nos deixava a sós... Nao achei espaco algum e passei o resto da noite, calada e chateada comigo mesmo. Brinquei com o meninos, sorri, fiz tudo o que tinha que fazer, mas a minha covardia  nao me saia da cabeca,  e meu coracao parecia cada vez mais entristecido pela vergonha que sentia de mim mesma.

Às dez da noite, a senhorinha se levantou rapidamente da cadeira em que estava e se despediu de todos num aceno, dizendo que tinha que ir pra casa. Fiquei quieta, observando-a atravessar o longo jardim até sua bicicleta, até o portao da casa, acompanhada somente do seu filho. Quando já estava subindo na bike, corri até ela, que ficou muito feliz ao me ver, a abracei e disse que oraria a Deus por eles dois. Ela agradeceu. Eu fiquei um pouco mais leve e voltei. Lá onde estávamos, o senhor continuou no meu pé, e do nada, comecou a fazer uma massagem nos meus ombros. Se despediu num abraco, explicou algo sobre a técnica que aplicou ao massagear e saíram, ele e sua esposa. Voltamos pra casa, e eu fiquei dias me sentindo mal por nao ter falado sobre Deus com aquela mulher. 

Ontem, exatos onze dias depois daquele encontro, aquele senhor faleceu, nao o moribundo com câncer, mas o brincalhao, num ataque fulminante do coracao.

Dá pra sacar o quanto isso me deixou mal?


***

Você dever estar estranhando, nao é? Louco pra me xingar:  "Mas como assim dona Nina? A senhora entao deixa de falar cara a cara com alguém que está morrendo, mas nao poupa a nós, seus míseros e raríssimos leitores desse seu blog de m* e nos enche desse papo de crente? Sua miseravelzinha hipócrita!" 
E sabe de uma coisa, se você pensa assim, tem toda razao! Mas mesmo assim, preciso explicar que junto a tudo isso que você leu antes que me impede, tem também o fato de eu me expressar melhor escrevendo. Falando eu sou uma tonta... escrever é a melhor forma que encontrei, de dizer o que penso, desde meus treze anos, idade em que, se eu falasse o que vinha à mente, poderia ser muito mal interpretada e no mínimo levaria uma boa surra da minha mae. As pessoas nunca gostaram de me ouvir, porque sempre me criticaram por eu falar rápido demais. Além de tudo isso, ainda tem o problema da língua, do medo de nao ser perfeitamente entendida. Aqui no blog, ah, francamente, quem nao quer ler que feche a página, diga adeus e vá embora!

12 comentários:

  1. Quer me dar dicas de como comecar a falar sobre Deus e Seu maravilhoso amor sem medo de incomodar as pessoas? Fique à vontade, mas por favor, nao fale qualquer coisa só pra me fazer sentir melhor, isso nao vai ajudar :-(

    ResponderExcluir
  2. Simplesmente deixe as coisas fluírem como devem ser. Você estava tão obcecada pela senhora que nem deu atenção aos que estavam em sua volta.Você estava com a faca e o queijo na mão e nem percebeu.
    Deixe Deus agir e não você.

    E olha o linguarejar aqui no blog dona Ninoca...Te amo!
    Sua fã maluquinha.

    ResponderExcluir
  3. Nina, aquiete-se. Não há nada de extraordinário em seu relato, somos mesmo bem travados ao falar em Deus, até mesmo por esse "medo' de sermos tachados de "chatos", "carolas", etc. Numa festa, e sem que a senhora tenha dado abertura, era difícil vc iniciar o assunto. E a dor dela, mesmo tendo saído e deixado o marido em casa, não se aplacaria de imediato, ela precisaria de tempo para pensar. Sinceramente, vc acertou em ficar na sua. Sua presença, sua alegria, ajudaram, com certeza, sem que nada precisasse ser dito.
    Quanto ao senhor, saudável, alegra, que se foi, que bom que ele esteve o tempo todo perto de vc, recebendo sua paz e sua energia. Nada é por acaso e aquele deve ter sido um ótimo dia para ele, e vc proporcionou isso.
    A vida é surpreendente e leve desse acontecimento apenas a certeza da nossa fragilidade.
    Muitas vezes não precisamos abrir a boca para falar em Deus. Ele se manifesta num carinho, num sorriso, num abraço..
    Beijo, linda.

    ResponderExcluir
  4. Nina, eu acho que muitas vezes as palavras nào se fazem necessárias para falar do Pai. Gestos, olhares, atitudes e o seu desejo interior, sua oração, mesmo que contida, emanam o amor Dele. Nào se cobre tanto! Beijo.

    ResponderExcluir
  5. Poxa Nina! Me identifiquei tanto com a situação. Também sou muito travada com as coisas do Senhor, e ultimamente fiquei culpada pois tinha uma garota no trabalho a quem eu queria falar do Senhor, ensaiei, ensaiei, até que ela foi demitida e não a vejo mais. Também me expresso melhor por escrito, e as pessoas também não gostam de me ouvir porque falo rápido ou baixo demais!

    ResponderExcluir
  6. Minha primeira vez aqui no blog...

    Quando eu paro para pensar no tamanho da diferença do que eu vou falar pode fazer na vida da pessoa, eu deixo para lá a vergonha, o medo de incomodar e falo.

    Geralmente eu ouço a pessoa e começo assim: "Sabe uma coisa que me dá esperança?" Ou "sabe uma coisa que me ajuda muito quando passo por situações como a sua?" Ou "você sabe que eu gosto de ler a Bíblia e esses dias eu li que..." Assim eu falo da minha esperança, da minha experiência pessoal, e não dá a entender que estou tentando converter a pessoa ou que sou carola, já que estou apenas trocando uma ideia. E dá certo! Se quiser conversar mais sobre isso para trocar ideias, pode me mandar um e-mail.

    ResponderExcluir
  7. Nina, Boa tarde! Já parou pra pensar se através da alegria que você emana, o senhor que estava ao seu lado conseguiu enxergar em você o amor de Deus? Nós não sabemos quando seremos instrumentos de Deus. Será que você não foi naquele dia, para aquele senhor?Beijos, Andréa, Rio de Janeiro.

    ResponderExcluir
  8. Eu me sentiria muito mal tambem,fico com um aperto no coracao so de pensar no senhorzinho. Que ele esteja em paz, nos bracos e na gloria de Deus Pai. Olha, eu simplesmente nao sou uma pessoa para dar dicas de como comecar uma conversa ou abordar a falar de Deus :( Aqui tambem as pessoas nao constumam a falar de Deus ou religiao.

    ResponderExcluir
  9. Nina,

    Pregue sempre o evangelho. Se necessário use palavras. ( Não me retorno o verdadeiro autor)

    Quando tinha 4 anos, meus pais aceitaram a Cristo. E desde então,sou protestante ( hoje tenho 22 anos)
    Meu pai hoje é um pastor e embora a minha vida toda tenha sido dentro de uma igreja, ainda tenho um certo receio na hora de pregar.
    Gosto muito de cantar, e acredito que este seja o meu dom... Qual é o seu?
    Escrever, cozinhar, demonstrar o amor pelo seu próximo?
    Outro dia, eu estava igual a você me questionando , conversando com Deus... e então o pastor pregou e mencionou a frase acima.
    Na faculdade que iniciei a 3 meses uma colega me disse: Nossa Aline, eu sei que é da igreja, mas você é diferente, vc não fica me dizendo toda hora o que fazer, ou tentando mudar a minha opinião. Você demostra no seu dia a dia o quanto confia em Deus e isso é bonito de ver!

    Tenho uma assistente na empresa e contato com outras meninas, todas as vezes que conseguimos algo eu canto...Obrigadaaaa senhorrr! ( é parte de um louvor gospel), hoje elas cantam sozinhas kk.

    Não sei se vc entendeu o que eu quis dizer, mas eu acredito que é Deus que nos capacita.
    O Senhor empobrece e enriquece; abaixa e também exalta.
    Levanta o pobre do pó, e desde o monturo exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do Senhor são os alicerces da terra, e assentou sobre eles o mundo.

    1 Samuel 2:7-8

    Eu acredito que é Deus que nos capacita, de acordo com os projetos que tem para nós!

    bjs

    ResponderExcluir
  10. Nossa Nina! Como seu blog é inspirados...sempre que entro aqui, saio boba de ver como você escreve coisas profundas! Quero ser como vc quando crescer! rsrsrs Beijos!

    ResponderExcluir
  11. Que eu me lembre Jesus não chegava falando de Deus para as pessoas, Ele garantia a atenção do seu interlocutor por sua sabedoria nos conselhos que dava, nos ensinamentos sobre questões básicas da vida, como o sermão da montanha, e principalmente, com suas demonstrações públicas de amor, era visível como ele se importava com aquele que sofre, é oprimido e necessitado, o estender a mão, o ouvido atento, o amor encarnado é a melhor proclamação das boas novas.

    ResponderExcluir
  12. Queridas, nao se preocupem, estou mt bem e totalmente recuperada ;-)
    Na verdade, isso é um processo e Deus tem trabalhado em mim todos os dias.

    Mt obrigada de coracao, por cada palavra de edificacao que cada uma de vcs usou do seu tempo pra me escrever.
    Deus cuide de vcs todas!

    ResponderExcluir