17/07/2014

A senhora da janela

Perto de casa há muitas janelas. Muitas floridas janelas. No prédio quase ao lado do meu, numa construcao antiga e cor de rosa, de janelas gastas num azul que já fora bonito, há uma senhora que todos os dias, pode ser vista olhando o movimento da rua. De cabelos curtos, encrespados e brancos, ela passa seu tempo olhando tudo. Pode ser inverno, pode estar nevando, chovendo granizo, sol tinindo, lá está ela, todos os dias. Na janela. Meu filho sempre que passa por lá, olha para o primeiro andar à  procura da "senhora da janela", como dizemos nós dois. - Olha Pedro, lá está ela, a senhora da janela. - Ele olha e acena: hallo! mesmo estando longe, do outro lado da rua. 

Ela já conhece o horário em que ele passa, e parece ficar a espera do hallo do meu filhinho. Faco que nao olho diretamente e percebo de rabo de olho o seu interesse. Ele fala: - olha mae, a senhora da janela. E grita um hallo bem alto e acena. Ela se anima, acena de volta  e continua acenando, até que entremos na linha fora de sua visao. Pessoas passam por ela, algumas conversam, a maioria a ignora. Ela deve conhecer a fisionomia de todos da rua. Laura, minha filha, quando soube que conversamos com a senhorinha, me perguntou certa vez assustada: - O que? Você está falando daquela velhinha de cara rabugenta que tem mó jeito de fofoqueira? - Engracado. Passa tudo pela minha cabeca quando a vejo, menos isso. Vejo uma senhora solitária, que mora num prédio meio acabado, à espera de notícias e acenos. Sua figura é tao marcante para mim e Pedro que quando nao está à espreita, sentimos sua falta. A primeira vez que a notei, nao ligava muito pra ela. Depois, falei um olá e ela respondeu sem vontade. Continuava a passar por sua janela diversas vezes, e seus duros hallos foram devagar, se transformando em tons mais suaves, assim como é suave o tom de azul e rosa do lugar. Nao dá pra desistir de ser gentil.

Outro dia, ela estava caminhando, indo em direcao ao supermercado. Até me assustei em vê-la em outro ambiente. Conversamos um pouco, ela me perguntou do menininho. Um olhar sereno, uma fala rápida, o clima que mudou, as previsoes do tempo que já nao sao tao boas como antes. Um bom dia. Sem aceno, ela fica outra. Sentiu falta do menininho que diz hallo e ciao ao passar de bicicleta pela janela. 

Gosto de vê-la. É como se fosse o termômetro dos dias. Faz cara feia enquanto deixa parte de sua janela aberta, quando o vento está forte, se encolhe em seu pulôver, quando esfria, se esgueira na janela, quando coloca sua coberta pra tomar um ar, quando esquenta, e pisca os olhos quando o sol está forte. Gosto dela.

Vou fazer um bolo mais tarde e levar pra ela. Vou dar pela janela e desejar um bom dia. Levarei menininho comigo. Sei que se sentirá feliz.

8 comentários:

  1. Que lindo isso! E ela ficará sempre marcada naquela janela.É seu lugar e hoje ficará feliz com o bolo e passagem de vocês por lá para entregá-lo, beijo,tudo de bom,chica

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  2. Nina...amei o seu modo de ver a cena,entender e apreciar.......sem dúvida, naquela vida solitária, vcs dois fazem falta.....ela vai amar o bolo e espero que isso estreite mais o relacionamento de vcs.....beijokas querida...

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  3. Curiosa esta Sra. Deve ser cheia de experiências e de vida. Amei o texto uma página de um livro.
    Aguardando as cenas escritas da entrega do bolo.
    bjocas
    Dani
    criancabemvestida.com.br

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  4. E depois que levar o bolo e o menininho junto para dar outra 'hallo' pra ela, volta aqui e conta-nos como foi a receptividade dela, se ficou espantada, alegre, emocionada, tudo daquele jeitinho que só você sabe contar.
    Muito gostoso te ler, amiga!
    beijinhos cariocas

    (No meu blog tem a história de um homem que você não conhece e vai gostar de saber.)

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  5. Ai que lindo!! Que apaixonante sua sensibilidade para falar de um momento que seria tao corriqueiro. E uma bencao ter esse dom. Muitos beijos

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  6. Há tantas senhoras e senhores assim por esta vida!
    Nina, você escreve super bem e transmite tudo de bom em suas narrativas!

    Bjs,

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  7. Nina
    Que delicia de velhinha!
    aqui em santo antônio do amparo existe uma rua onde as senhoras colocam as cadeiras no sol e com o terço na mão ficam observando as pessoas. Pois é em frente a rodoviária.
    E uma rua feita de sorriso! A gente pensa que a reza ou faz um efeito enorme pra Deus ou então é motivo de piada pelos deuses.
    com carinho MOnica

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