05/06/2014

Ovo poché e minha avó

Todas as vezes que faco o tal do ovo poché, gosto de ficar observando seu movimento na água. Torcendo pra que ele saia perfeito. A chance de o ovo quando colocado na água quente, nao juntar suas partes, deve ser pequena, porque sempre dá certo, porém, o risco existe. Mas no fundo de mim existe uma menininha que espera que o ovo "desande" na panelinha e se misture a água, formando uma coisa etérea e sem forma. É que isso lembra muito a minha infância. 

Nao, ninguém fazia ovo poché na minha casa, mas minha avó fazia o "caldo da caridade". Você certamente nao conhece, a nao ser que venha da Amazônia, ou talvez, de alguma parte do nordeste e seja já um tanto coroa ;-) Na verdade, o próprio caldo da caridade, nao leva ovo, o verdadeiro, se nao me engano, é o "cabeca de galo" ou algo assim, mas gosto de lembrar do caldo da minha avó quando cozinho. Essa é uma das coisas que me lembram muito a velhinha Laura. 

Nao havia doente que nao se recuperasse com aquele caldo de lindo nome. A palavra que me faz pensar em vovó: caridade. Ela nao tinha posses. Vivia das suas costurinhas e da ajuda de seus filhos. Mas vovó sempre cozinhava mais do que precisava pro caso de algum necessitado bater a sua porta. Ela tinha sempre panelas enormes no fogao, mesmo estando só ela em casa ou no máximo uma ou duas netinhas por perto. E alguém com fome sempre aparecia. Havia a dona Esmeralda, por exemplo, que me lembrava a Madame Mim. Era uma senhorinha muito sofrida, que inclusive diziam, era agredida pela nora.
Ela tinha um odor muito característico e diziam que até banho a velhinha era proibida de tomar em casa. Todo fim de tarde, dona Esmeralda ia na casa da vovó comer alguma coisa. Às vezes, ela ia só pra ficar conversando com minha avó e ficava olhando da janela, enquanto minha avó costurava nossos babydolls, que eram sua especialidade. Eu gostava de vê-las conversando. Eram duas velhinhas muito velhinhas, pra mim, que devia ter no máximo uns cinco anos. Parecia que elas eram de outro mundo. Um mundo de gente caquética e sem dente, mas doce e gentil. É lembrando da dona Esmeralda, que quando morreu, vovó nem ficou triste e disse que finalmente, a sofrida amiga velhinha teria sossego, que penso que caridade seja a palavra que melhor define minha avó.

E quando nao tinha comida, vovó fazia o caldo da caridade. Ela deveria pensar que todo necessitado era meio que doente da alma e esse caldinho, feito com farinha de mandioca fina e ervas, levantava mesmo qualquer defunto. Fosse de corpo ou de alma. 

A mesma coisa acontecia quando havia alguém doente com dor no peito ou nas costas. Vovó fazia umas rezas usando algumas folhas de qualquer coisa, apertava o doente daqui e dali, e o colocava, quando o caso era mais grave, de molho num banho com folhas. Depois, o doente ia pra cama, tomar o caldo da caridade e sentir todo o acolhimento e amor que aquele caldinho proporcionava. Era um tempo sem remédios, e esses cuidados que vovó tinha conosco, era tudo o que tínhamos. 

Uma avó zelosa, folhas retiradas do jardim de ervas que ela tinha e caldo feito de farinha. Pra que remédio?

Se pudesse me ver cozinhar, sei que vovó teria orgulho de mim. Ela era boa cozinheira com seu jeito simples e com os poucos recursos que possuia. Lembro tanto dela me mandando fritar peixe. Eu tinha pavor de me queimar com os respingos da fritura, e enchia meus bracos de pano de prato. Ela ria. Daquele jeitinho tao especial que tinha. Me olhava com tanta ternura! Sentávamos pra comer, só nós duas, enquanto ela dizia que quando morresse, eu herdaria suas coisas. Eu olhava a casa com poucos móveis, um armário velho de madeira robusta, uma penteadeira com perfumes antigos e talcos de velho, algumas moedas, uma cama com mosquiteiro, uma panela de ferro pesadíssima, umas poltroninhas de couro, uma máquina de costura, uma casa de madeira apodrecida: - vó, a senhora nao vai morrer, nao fala isso, dizia eu toda preocupada.  - Nao vou virar pedra, Pinguinho, respondia minha amada. 
E continuávamos a comer quietas. Até que ela comecasse a contar piadas repetidas tantas e tantas vezes e que eu sempre morria de rir.

E o peixe sempre tinha um gostinho especial. E o caldo da caridade também. E o acaí. E o tutano do osso que comíamos escondidas, com farinha e acúcar. Tudo feito com a ternura eterna da minha avó que sei, um dia, vou reencontrar no céu. Essa é uma das poucas certezas absolutas que tenho na vida: um dia encontrarei minha avó de novo e toda a saudade de mais de trinta anos de afastamento, se acabará...      


 Na foto, risotto com batatas e cenouras raladas, com rúcola, ervilha e ovos. 
Querendo a receita, me fala que te passo.

4 comentários:

  1. Delícia te ler e imaginar esse caldo da caridade que levantava doentes e espalhava o bem.; Momentos lindos! beijos,chica

    ResponderExcluir
  2. Que linda sua vovo com o caldo da caridade. E esse prato me deu uma fomeee!!!

    PS: To fazendo o atelier ;D

    ResponderExcluir
  3. queru a receita naum...qdo eu for ai vc faz pra mim ta!? beijokas

    ResponderExcluir
  4. aiai...e vc fez e eu adorei!!! me manda a receita pleaseee...
    beijokas enormes...saudades das nossas conversas e risadas infinitas...

    ResponderExcluir