25/02/2014

Hassan, massagem na alma e Marrakesh

Prometo que nao incomodo mais você com Marrakesh. 
Este é o último post sobre essa viagem sensacional.

* * *

- Qual você quer primeiro querida? Massagem ou o hammam?
- Ah sei lá, acho que esse tal de hammam tá bom! Sabe Deus o que isso quer dizer. Agora vamos logo comer que já to com fome de novo.
- Mas acabamos de tomar café, Nina!
-Ora, faca-me o favor queridinho, tá me regulando é?!

Subimos no restaurante que fica bem no meio do burburinho da cidade. Do alto, podemos ver cegonhas bem de perto, que estao por toda a parte, fazendo seus ninhos no alto das construcoes. Este é um restaurante simples, porém famoso por fazer boa comida, ter bom preco, e o mais importante, ser limpo. Em muitas partes da Áfica, precisamos ficar atentos com a qualidade do que nos é servido e mais ainda, com a água que usamos. Até pra escovar os dentes, os de estômago mais fraco, sao aconselhados a usar água mineral. Bom, isso nao é diferente para um estrangeiro que vai conhecer a minha cidade no Brasil.  

O garcom vem até mim: - Bonjour, por favor, um chá de hortela! Je suis malade! Adoro dizer isso aonde vou. Como soa bonito falar que está doente em francês e receber atencao redobrada ;-) Mesmo que eu já estivesse bem melhor do mal estar que durou apenas uma noite. O chá vem quentinho, com folhas de hortela frescas e inteiras. Típico. Aqui em Marrakesh, elas sao tao bonitas, verdes, tao gordinhas e suculentas!  Há muito tempo procuro na Alemanha, folhas boas dessa planta, que cheirem de verdade, como conheco do Brasil, mas nem mesmo no meu país de origem, essas maravilhosas folhinhas tem a textura, o aroma e  a cor o sabor que possuem em Marrakesh.

Como um frango com curry delicioso e tenho medo de passar mal de novo, mas está tudo bem comigo agora. Tomo duas vezes o chá  que me foi servido. Depois vamos visitar um palácio antigo, e notamos que tudo nessa cidade, parece ter sido um palácio antes. O restaurante onde estivemos ontem à noite, fora também um palacete, pertencente a uma rica família. Era lindo! Tinha uma piscina dentro do prédio, com o mais belo tom de turqueza que já vi, o lugar era incrível, riquíssimo em detalhes, comida ótima e de preco muito bom. Mas os garcons nao eram muito normais, pareciam mais uns robozinhos tentando agradar. Fiquei até me sentindo mal, nao nasci pra ser cortejada demais, pra ser tratada como princesa. Eu to mais pra plebéia, nasci pra servir, apesar de nem isso fazer direito.

No outro dia de manha cedo, vamos ao centro de estética. É uma casa de massagem, e por favor, entenda que é realmente apenas isso, ok? Nao somos um casal moderninho, se é que você me entende. Meu marido faz sempre questao de me proporcionar certas frescurinhas. Ele acha importante que eu me sinta bem, relaxada, quando viajamos, e massagem é sempre um ótimo comeco pra desestressar, nao é? Até mesmo pra uma simples doninha de casa como eu, que nao se estressa nadinha... cof cof.

Vamos até a recepcao e pedimos que nossos horários sejam alternados, por causa do nosso filhinho, que nao temos com quem deixar: - Oh nao, nao se preocupem - diz a gentil recepcionista - ele irá com vocês ao hammam, mas primeiro vocês tem que se trocar. Aqui estao as chaves. - Eu já estava com medo do que seria o tal hammam, e fiquei ainda pior quando vi que precisávamos usar umas tanguinhas ridículas, feitas de tecido descartável. Tive que segurar o riso quando vi marido de 1,90 de altura e um tanto gordinho,  usando aquilo. Logo depois, fomos levados a uma sala meio escura, quente  e úmida. Entrou uma senhora grande e meio gorda, que calcou uma luva de pano áspero e de forma gentil, falando francês que nao entendíamos nada, comecou a esfregar o corpo do meu marido. A cada lixada que ela dava nele, mostrava orgulhosa o resultado de seus bracos fortes: a sujeira que saia em forma de rolinhos, era de impressionar. Lavou os  cabelos dele com um xampu cheirosíssimo e deixou seus pés de molho, numa vasilha  de madeira com água e pétalas de rosas. Uma flor do deserto, aquela senhora. Fez depois o mesmo comigo e dizia sem parar: - você parece marroquina! Fez o mesmo com Pedrinho, mesmo sem termos pago pra ele. Se comportou tao bem, meu menininho, que nem parecia o mesmo, quando em casa, vou lhe dar banho e ele abre o berreiro quando o xampu cai nos olhos. Ele ria pra ela e ela o tratava como seu bebezinho. E foi assim que eu também me senti, uma crianca sendo lavada pela minha mae! 

Entao o hamman era isso. Antigamente, os marroquinos nao tinham água em casa, e era nesses famosos hammans que eles podiam tomar banho. Fiquei pensando nas vezes em que ela dizia que eu parecia uma marroquina: será que ela estava se referindo a sujeira que tirou de mim, que cá pra nós, foi maior que a do marido? Oh Deus, ainda bem que ali ninguém me conhece. Eu, a "sujismundinha" de Marrakesh! Ao sairmos da sala, me arrependi de nao ter dito: Obrigada Mama, pelo banho! Foi ótimo, mas agora to com a pele toda ardida e vermelha, igual a sua cidade!

Depois disso, fomos receber a massagem marroquina. Pedro ficou com uma moca brincando e nós fomos receber por uma hora, uma massagem típica. Nao me arrependi porque já estou levemente acostumada  a ser mal tratada (rs), mas  a massagem é cheia de porrada, com as maos daquelas mocas antes, tao calminhas, que nem de longe desconfiamos que podiam lutar karatê sobre nós. Entre uma e outra massagem tranquilinha, "iáááááá", uma paulada vinha. Depois um carinho, logo em seguida outras pauladas! As mocas pareciam ter cinco maos, que se revezavam em toques suaves e cacetadas.

Só sei que depois, eu gostei tanto que quase abracei a moca. Mas antes disso, ela veio e me abracou de leve. Porque eu a elogiei. E saímos nós três daquele prédio, meio que levitando. Nossa pele até hoje está macia. Fomos lixados, ensaboados,  massageados e quase espancados, mas foi bom! Fiquei dois dias sem tomar banho, porque queria conservar aquela agradável sensacao na pele e por favor, nao faz essa cara de nojinho...

Era nosso último dia em Marrakesh. Já estava sentindo saudade. Samira se despediu de nós e eu me arrependi de nao tê-la abracado. Pensei, mas nao fiz. Que chato isso. Depois, saimos de carro com  Hassan, um taxista super simpático que nos levou para as montanhas. O Marrocos é um país lindo, cheio de paisagens contrastantes. Vimos de desertos a montanhas nevadas. Conhecemos pessoas que moram em lugares ermos e vimos muitos cavalos e camelos. Mas de tudo isso, o que ficou na minha memória nesse dia, foi a gentileza do Hassan. Ele é um homem alto, magro, nao muito jovem,  de pele escura e com poucos cabelos. Dono de um carro grande que tem a carroceria de uma marca que nunca ouvi falar e motor mercedez, que ele falou todo orgulhoso. Ainda solteiro, que se diz nessa situacao, por ser ainda muito moco pra casar. Que ri com os olhos e parece ser a pessoa mais tranquila que já vi na minha frente. Que dirige numa cidade terrivelmente movimentada e confusa mas que traz a paz necessária pra nao se estressar. Nascido nas montanhas do Marrocos. Filho dos Berber, povo caracteristico daquela regiao e que demonstra um carinho enorme pelo meu filho. Será um bom pai quando nao for mais tao moco pra casar...

Me despeco do Hassan, depois desse lindo passeio de quase sete horas, como se estivesse me despedindo de toda uma nacao que me encantou. Nunca havia, numa viagem, estado tao perto da populacao como dessa vez. Percebo que Pedro perdeu um dos seus bichinhos minúsculos, de brinquedo, nas poltronas do carro. Procuramos e nao encontramos. - Deixa pra lá Hassan, nao era tao importante. - Saímos. To com saudade e um aperto no coracao.

Quando estamos quase virando a esquina, já bem longe do carro, ouvimos alguém. -  Pedro! Pedro! Olha, seu escorpiao, eu achei! Era Hassan correndo atrás de nós, com o brinquedinho de borracha do meu filho nas maos e um sorriso feliz no rosto. Eles riem. Eu quase choro.

Deixei Marrakesh pra trás, ou como diz meu filhinho,  "Makarresh". Mas ela ainda está em mim. Na minha pele ainda macia, no  escorpiao que me olha no meio dos brinquedos, nas fotos, no meu coracao, enfim.


***

Se você um dia puder ir ao Marrocos, vá. Valerá a pena cada centavo gasto.











12 comentários:

  1. Que coincidência, acabei de voltar do Marrocos com tanta coisa para contar!!!
    Suas fotos estão lindas :)

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  2. Que demais Nina!!!!
    Ri muito e fiz carinha de nojentinha!!!!? rs....

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  3. Olha a Milena la em cima....ahh, então foi la que eu tinha visto o Marrocos também...rs...não me lembrava aonde!
    Nina, hoje não deu tempo de ler o post mas fiquei admirando essas fotos deslumbrantes, cada cores e detalhes, um espetáculo!!
    Bjks!

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  4. Nina viajei com vcs e amei.Esse último detalhe o da massagem .fiquei imaginando aqui a delicia que deve ter ficado sua pele depois.Deve ser uma maravilha essa massagem.Bjs e as fotos estao lindas.

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  5. Ai Nina, gosto tanto do seu jeito de escrever e relatar as coisas! Você vê tudo com o coração né!!!
    Sabe que acabei me emocionando com a leitura e em vez de rir acabei chorando de emoção!
    Fico feliz por ver que você curte a tua vida e anda pela vida de olhos abertos, vendo a beleza no dia-a-dia.
    Beijocas e até hoje a noite!!!
    Cody

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  6. Nossa que viagem incrível!!! Adoraria conhecer o Marrocos e sentir a atmosfera especial deste lugar. Uma viagem assim é para guardar na memória durante muito tempo. Linda!! Bjs

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  7. Olá, é a primeira visita. Gostei do seu blog e já estou te seguindo. Me segue também? Me seguindo, seu blog será incluído em minha lista de blogs e ficará visível para aproximadamente 200 dos meus visitantes diários.
    Obrigado!
    Te desejo sucesso.

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  8. Milena, já vou lá ler o que vc contou sobre o Marrocos.

    Ah Dani, que é isso amiga, no inverno nao tem grandes problemas, hahaha

    Hey Tati, pra me ler tem que ter mt paciencia, nao sei escrever curtinho nao ;-)

    Malu, a massagem foi mesmo mt boa, na hora das cacetadas nem acreditaria, que no fim, eu ia ate agradecer ;-)

    Ah Cody, minha querida, obrigada! assim sou que choro...

    Foi mesmo incrível Sandra, mesmo sendo tao diferente do que estamos habituados, talvez por isso mesmo, é tao especial.

    Caro Leao da Montanha,obrigada, seu convite é mesmo tentador, mas só sigo quem eu quero ;-)

    Bjs pra todos!

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  9. Ui Ninoca,
    Eu me arrepiei com seu texto, acredita?
    E fiquei com vontade de comer azeitona, elas parecem ter vida na foto que você compartilhou.
    Que passeio "mara", hein amiga?
    Isso que você comentou de "estar perto" das pessoas acontece tão pouco, infelizmente, pois tem um valor enorme as trocas que fazemos nessas incursões culturais. Algumas pessoas nos tocam tanto, como o Hassan te tocou. Parece até que a simpatia vem de graça! Mas acho que a simpatia-empatia vem quando tanto nós quanto os outros estão no momento presente, atentos, disponíveis.
    Quero conhecer o Marrocos um dia.
    Beijos querida!
    Márcia

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  10. Nina. Que bom te rever. Estou atarefada mas hoje dei uma passadinha pra rever os amigos.
    com carinho Monica
    Amei ver Marrocos atraves de seu olhar muito bem orientado.
    Um dia quem sabe? Irei conhecer Marrocos.

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  11. Oi, Nina!!
    Então conheceu Marrakesh, a pérola do sul? Vivi em Marrocos antes de retornar ao Brasil e ainda tenho o cheiro e as cores em minhas narinas (rs*), além do sabor das tâmaras.
    Fotos lindas!!
    Beijus

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