22/03/2013

Perdendo a vergonha

Quando cheguei aqui, há quase sete anos, lembro de uma coisa que me deixou levemente chocada: as pessoas nos supermercados - antes de chegarem ao caixa - colocavam suas compras nas sacolas de pano que traziam (ou em cestas de vime) e saiam carregando aquilo pela rua, a pé, de bicicleta, ou nos Straßenbahn (bondes). Como eu era recém chegada do BRASIL ficava só pensando: meu Deus, ele tá roubando mercadoria?? Mas que sem vergonha!

Lembro de um dia que tivemos que carregar as compras todas nas maos porque esquecemos a sacola e no meio das compras havia um pacote de papel higiênico. Morri de vergonha daquilo enquanto meu marido me olhava sem entender porque eu ia alguns passos atrás dele: esse aí carregando papel higiênico? conheco nao!

Uma das coisas que nós, brasileiros, aprendemos aqui, é que definitivamente, Alemanha nao é Brasil. 

Alemao é extremamente simples e nao liga pra algumas coisas que no Brasil, parecem tao perturbadoras. É claro que estamos falando de um país com sistema de transporte público que funciona com quase absoluta perfeicao, por isso, muitas pessoas já nem dirigem mais os seus carros e muitos nem veem mais necessidade de ter carros. Temos dois amigos que moram um em Nürnberg e outro que mudou pra Zurique. Ambos nao tem mais carros. Afinal pra que carro? O bonde passa pertinho de casa e o diesel e as revisoes anuais sao tao caros que já nem valem mais a pena. E se quiser viajar pra longe, basta pegar um  trem ou  alugar ótimos carros, super bem conservados e num preco justo. Nós mesmo, desde que mudamos pra cidade que moramos (na antiga nao havia bonde, porque era muito pequena, só havia ônibus normais) quase nao usamos mais carro. O pobrezinho fica lá na garagem, pegando poeira. Brinco que estamos ficando pobres, porque todo mundo que conhecemos vai de carro pra um lugar qualquer enquanto nós, andamos na neve, na chuva ou granizo, empurrando carrinho de bebê de um ponto ao outro pra pegar os bondes. Os brasileiros riem da gente, os alemaes falam muito sérios: tá certo! pra que carro se você tem bondinhos passando sempre? 

Aprendi a ser bem mais simples aqui. Isso é uma coisa que me deixa sempre tao feliz quando penso na Alemanha. Nao que eu nao fosse já no Brasil, essa pessoa linda e maravilhosamente incrível que sou -->


Mas o país me ensinou onde, no que e em quem eu devo realmente colocar valor. Coisas de marca, carros, jóias, sapatos, bolsas, celulares sao coisas que nunca me fascinaram, e agora, muito menos. E se há uma coisa que sou muito grata por viver aqui é notar que perdi todas as vergonhas estúpidas e sem sentido que antes me acompanhavam.

Olha eu aí chegando em casa do supermercado hoje mais cedo:

Sacolas de pano e papel higiênico na mao. E isso porque bebê estava na escolinha comendo o lanche dele e dos coleguinhas, porque quando vou com ele (ou seja, todos os dias) coloco tudo na parte de baixo do carrinho e lá vamos nós, empurrando a vergonha boba embora.

* * *



Ai ai, a vida fica tao mais bonita e tranquila quando a gente se desapega dessa tolices que todo mundo acha sensacional...


18 comentários:

  1. Simplicidade e deixar pra trás tantas bobagens e riquififis que temos aqui é legal!! Tudo anda, funciona muito melhor que aqui. A mentalidade tacanha atrapalha! beijos,chica

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  2. Kkkkk,minha filha, vira e mexe, esquece das sacolas.Da 1ªvez que fui com ela a um supermercado descobri o mesmo que vc: todo mundo com suas sacolinhas a tiracolo, e pra não variar, minha filha tinha esquecido as dela.Fizemos umas três viagens do caixa ao carro no estacionamento.
    Também acho que a simplicidade que se vê por aí e arredores valorizam o que realmente vale a pena ser vivido.È um privilégio morar-se num país no qual os direitos dos cidadãos são respeitados.
    Vc está um chiquê, só!
    Bjkas,
    Calu

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  3. Nina, vários exemplos admiráveis.
    Aqui estamos pestiados de sacolas plásticas, o transporte público não funciona e a cada dia mais carros nas ruas.
    Quantos séculos precisaremos para deixar o carro empoeirando na garagem?!
    Todo o frio, acho eu, vale a pena com uma vida mais simples onde é possível ver beleza e tranquilidade.
    Beijo

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  4. Nina, que legal esse desapego. Estou treinando e consigo fazer um pouquinho, pelo menos em relação ao carro, e o pessoal já está achando que sou um ET, kkk>
    Beijo
    Manoel

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  5. Nina, que legal esse desapego. Estou treinando e consigo fazer um pouquinho, pelo menos em relação ao carro, e o pessoal já está achando que sou um ET, kkk>
    Beijo
    Manoel

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  6. No Brasil as pessoas tem vergonha de levar lanche de casa. Eu levo até nas minhas viagens de avião, detesto depender da comida que me servem em avião.

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  7. Bom dia, Nina. Gostei, eu também a cada dia me torno mais simples, muito mais fácil viver assim. Hoje meu velho faria 88 anos, coloquei um post lá no facebook dando os parabéns pra ele e lembrei de você. Vou copiar aqui pra você ver: "8.8 - Todos os anos penso comigo mesma: meu velho, você ainda poderia estar aqui conosco... Lamentando todos os anos você não estar aqui, usufruindo do que plantou, acompanhando o caminhar de seus netos. 8.8 já é muito, não é meu velho? Mas mesmo assim ainda queria você aqui, ah queria sim. Um beijo e um abraço beeeem apertado." Beijo, minha linda, bom final de semana.

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  8. Oi amiga!

    É verdade, infelizmente aqui se valoriza e se dá tanta importância a coisas tão insignificantes, né? gosto muito dessa ideia de "outros valores"... aqui, levo minhas sacolas de pano pra tudo que é lado, mas acredita que tem lugar que querem colocar as de plástico dentro da minha ecobag? sempre tenho que explicar porque não quero levar sacolas plásticas pra casa, é como se eu tivesse uma gravação e toda vez preciso dá um play...
    Confesso que não sei até quando aqui a mentalidade será tão pequena, onde se valoriza mais o que "se tem e não o que se é".

    Um beijo querida, boas compras e nada de vergonha de mostrar o papel higiênico, viu? rs rs

    Fiquem com Deus!

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  9. Nota dez procê! Esse negócio de ir de carro pra todo lugar também não é comigo e olha que por aqui o transporte público não é assim uma "brastemp". hehehe Por isso tô sofrendo com essa minha hibernação em casa por causa do joelho. Ah, eu quero andar muuuito! Com sacola ou sem.

    Beijos Nina. Tamos no Outono. Depois de tres meses aí no frio tô adorando estar de short e camiseta.

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  10. Como cê está bonita, nina!

    Aqui no interior ainda é mais simples. Eu mesma ando de moto embaixo de chuva e tudo bem.
    Porém, o carro ainda é sinal (bobo) de status, principalmente para homens.
    Beijão.

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  11. Adoro esses seus posts que tu conta como é a vida aí. Vontade de fazer as malas... kkkkk

    Beijocas

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  12. Vixe.. eu devo ser um ete aqui no Brasil, pois eu sempre fui assim... meio "alemã" então! Eu colocava as coisas nas mãos sempre (nucna tive carro), depois de pagar usava minhas próprias sacolas, mesmo antes da história das sacolas retornáveis, sempre fiz isso. e nunca liguei para levar papel higiêncio pelas ruas até minha casa HAHAHH

    Mas sim, as pessoas aqui ficam me olhando, mas eu nunca liguei. é mais prático para mim e eu preciso né? Quando era nova, não queria comprar um montão de papel higiênico sozinha... daí adiei adiei até que fiquei sem... ahan, foi beeeem pior do que alguns minutos andando na rua sozinha com papel higiênico, absorvente hnahahaha! hahahaha

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  13. Acho incrível esse tipo de atitude e o brasileiro reclama se tem que pagar uns centavinhos pelas sacolinhas de plástico. Quem dera se todos fossem, assim, conscientes e deixassem seus carros em casa (claro, que aqui o sistema de transporte público não funciona), levasse suas sacolas aos supermercados. Ahhhh ainda tenho esperança que um dia o brasileiro mude a sua cultura em alguns aspectos danosos.

    Beijos!!

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  14. Nina, no Brasil eu nunca que pegaria um busão com um pacotão de papel higiênico, kkkkkkkkkkkkkk. Eu também adoro a simplicidade que vejo por aqui, ninguém tá nem ai com o seu papel higiênico, ou com a roupa e sapato que vc usa. Aqui é cada um na sua. Mesmo! Bjs

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  15. Hehehe - ADOREI, Nina :-) E viva a simplicidade e a sem-vergonhice (no bom sentido, claro, hahaha). Adoro essa liberdade de poder fazer o que se quer sem ninguém ficar olhando de lado e julgando o tempo todo!
    Só tenho um pitaquinho: o transporte público alemao já foi melhor (e mais barato), principalmente entre cidades. Para ir de Aachen até Düsseldorf (e voltar) de trem, eu gasto 40 euros! Subiu um monte o valor do ticket! Se eu fosse todo dia, ia desembolsar 200 euros semanalmente para ir trabalhar! De carro, eu gasto menos da metade desse valor :-( Além disso, de trem eu demoro 2 horas para chegar, de carro levo 1 hora :-( Eu até queria usar mais o trem (acho ÓTIMO poder ficar lendo no trem ao invés de ficar me concentrando no trânsito, além de achar os trens alemaes confortáveis e limpos), mas tá muito caro e muito demorado (pelo menos o trecho que eu usaria, buaaaaaa) :-(
    Beijocas mil, e bom domingo pra vocês :-)
    Angie

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  16. kkkkkkkk vergonha pra quê né?! Mas eu confesso que no Brasil eu não faria isso...como a gente é besta as vezes viu! Tem nada demais! hahahaha
    xeros

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  17. Coisa linda Berê querida!! linda!!
    poxa, ele poderia mesmo ainda estar aqui ne? novao teu veio :-)

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  18. Como o meu lema é "o que os outros pensam é problema deles", sempre carreguei papel higiênico desembrulhado pelas ruas de Beaga.
    E vou levar minha filha na escola vestida de pijama!
    beijoKas

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