06/09/2012

Religiao na Alemanha

Ontem, andando com Pedro pela cidade, até me assustei quando vi a mensagem num panfleto que um homem me deu: eram alguns versículos da Bíblia. Eles estavam em dupla, somente eles dois, homens discretos e silenciosos, segurando uma bandeira escrito algo sobre Jesus. Havia uma mulher conversando com eles e só. Sabe, nao é algo comum ver essas coisas por aqui, pelo menos, nao na minha cidadezinha. Você vê manifestantes de partidos políticos em época de eleicao, grupos de jovens fazendo protestos por isso ou aquilo, grupos que pedem colaboracao à causa animal, punks com garrafas de cerveja e canecas de metal esperando com seus cachorros uma ajuda de custo quando acha que nao ganha o suficiente do governo (aqui quem tem animal de estimacao e prova que nao é capaz de mantê-lo, recebe ajuda de custo), alguns poucos pedintes vindos de outros paises, pessoas tocando ou criando arte nas ruas com seus chapéus ou caixas dos instrumentos no chao, esperando algumas moedas, mas muito raramente vê gente falando sobre Deus. É de alguma maneira, reconfortante nao ficar ouvindo gritos e barulheira louca como nas ruas do Brasil, mas faz a gente pensar também a respeito.

Quando cheguei aqui, meu marido me perguntou se eu queria frequentar alguma igreja, eu disse que nao necessariamente, mas que poderia ir de vez em quando se me desse vontade, entao ele falou algo como, isso nao existe, ou você vai ou nao vai além disso, era preciso saber se eu iria assumir alguma religiao, porque ao fazer minha inscricao como nova moradora da cidade na prefeitura (aqui ao mudar de cidade, todos devem ir obrigatoriamente se apresentar ao departamento responsável) e os integrantes de igreja pagam um pequeno imposto, imposto esse que ajuda na manutencao da igreja). Nessa época meu marido recebia bem pouco e como o alemao deve ser o povo que mais economiza no mundo, eles que nao sao religiosos, claro, acham que é dinheiro jogado fora e eu coitada, como nao tinha religiao e nao queria sair por aí gastando o dinheiro do homem que conhecia há pouco meses, fiquei quieta.

Em outras palavras, eu acho que o imposto expulsa os alemaes das igrejas e como eles nao sao muito ligados em religiao mesmo... Quero dizer, depende da regiao que se mora, existem algumas mais religiosas e outras menos (meu marido p. ex., nasceu na Alemanha Oriental, comunista, ele nao é nem mesmo batizado, nem sua mae é,  imagina frequentar igreja. Apesar de ele acreditar em Deus e em sua existência, ele e ninguém da família ou rede de amigos é religioso.

Temos um amigo aqui que namorava uma moca que passou a frequentar uma igreja assim, de repente, nao sei se católica ou protestante. Sei que a moca o deixou. Eles viviam inclusive juntos, mas ela escolheu viver a religiao da forma como recomenda a igreja. Ou seja, sendo fiel mesmo, nada de sexo fora do casamento ou viver uma relacao com alguém que nao seja da mesma crenca. Ele sofreu pra caramba. Mas aceitou sua decisao.

As pessoas aqui sao muito assim, 8 ou 80, sabe? Esse negócio de acreditar em Deus mas nao viver exatamente como diz a Bíblia, é hipocrisia pra eles. Ou você é religioso ou nao! Alemao é cabeca dura até nisso e podem até ter razao em muitos pontos, mas pra uma brasileira... vixi... a gente tem mesmo grande capacidade em ser maleável. A gente sabe se adaptar, sabe ser flexível. Eles nao! Um dia um amigo nosso ao ver meu Ficus (planta) coberta de bolas de natal ficou indignado. Pra ele tradicao é tudo e árvore de natal com bolas de natal, SÓ pode ser um pinheiro...

De qualquer maneira, imagino que nao deve ser complicado se assumir religioso aqui. Eu vejo as pessoas muito respeitadas em sua crenca. É claro que as pessoas sempre olham as mulcumanas com seus  véus e algumas vezes, com suas burcas, com rabo de olho e sempre vao achar estranhos os rabinos com suas barbichas longas e seus cortes de cabelos esquisitos, de maneira estranha, mas nunca vi ninguém fazendo graca com eles.


A palavra que mais ouco dos alemaes é tolerância. Muito interessante isso nao? No país que num passado nao muito distante praticou a intolerância em grau extremado, hoje é esse país livre e que demonstra respeito às escolhas de cada indivíduo.

Ponto pra Alemanha!

***
em tempo: claro que nem todo mundo é assim. Claro que nao há perfeicao, os árabes p. ex., nao sao muito bem vistos, mas ainda assim, tem seus direitos respeitados.
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os católicos também nao sao muito queridos, pelo menos entre alguns conhecidos meus, uma pessoa muito próxima de mim, quando conhece alguém que é falso ou nao muito bom de caráter, diz: ele é católico! Uma vez ela me explicou que é somente forca de expressao e que isso deve estar ligado a inquisicao.
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Nao esquecendo que Lutero era alemao...

7 comentários:

  1. oi Nina!
    quanta coisa interessante você escreveu neste post..
    Eu também me assustei com este lance do imposto quando cheguei aqui... bom, eu no Brasil fui batizada, fiz primeira comunhão, crisma e casei na igreja catolica, porém nunca fui de ir a missa (isso é briga com minha mãe até hj... rsrsr).
    Mas acredito em Deus, MUITO!!!! e gosto de ir a igreja quando me da vontade, acho um lugar sossegado, gostoso de refletir e rezar (mesmo da minha forma).
    Também achei bacana este "jeitão"do alemão ter respeito, acho que deveria funcionar desta forma em todo lugar, pois ficaria sem pressão...
    beijãoooooo

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  2. Muito bom conhecer um pouco da cultura alemã. Bom que eles aprenderam com os erros do passado, diferente de alguns povos e suas crenças que pregam "deus" e praticam a total intolerância e desamor. Minha religião é Deus e tudo que honrar o Seu nome!
    Ameeeeei Nina, bom que está de volta pra nos alegrar com seus posteres tão diversificdos.
    Bjs mil.

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  3. Oi amiga,

    Então, esse é mesmo um assunto bem polêmico, mas concordo com o seu marido, temos que decidir seguir ou não uma religião, esse negócio de ficar em cima do muro não dar, tipo "ah, vou quando sentir vontade", acho que temos sim que assumir as nossas escolhas... e escolher Deus é a melhor delas, isso não tenho dúvida.

    Que bom ter (ler) você de novo...

    Um grande beijo, fiquem com Deus!


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  4. Tbm adoro esse respeito que vemos aqui, Ana.

    Obrigada Fabi. Pois é, acho sim que eles aprenderam. Esse país deve ter se transformado mt desde aquela época, sei lá, é uma coisa impressionante. Mas é claro que os que vieram dessa época maldita, estao bem velhinhos... ja nao teriam mt voz ativa e o povo jovem nao quer mais viver desse passado terrivel que sempre os condena.

    É Ju, amiga, nao é bom ficar em cima do muro nunca ne? mas tbm nao acho legal isso de ser tao 8 ou 80. Há que se ter bom senso, sabe? sei la...afinal o mundo mudou, nao se vive mais no antigo testamento. de qq maneira, isso é tema sempre complicadissimo e totalmente fora da minha alcada :-)

    Bjs gente querida!

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  5. Oi Nina querida!
    Hum... você tocou em pontos muito sensíveis... A tolerância, a inflexibilidade e a religião.
    Concordo que alemães são tolerantes com a diferença, mas até o ponto em que a diferença se enquadra nas regras da Alemanha. De modo geral eles acolhem a diferença e veem nela uma maneira de se enriquecer culturalmente. Acho isso muito legal.
    Já o meio termo (flexibilidade) não existe para os alemães. O caminho do meio, como prega o budismo, não se aplica em terras germânicas... E isso tem desdobramentos positivos e negativos... Eu particularmente achei muito difícil lidar com a inflexibilidade do ethos alemão, porque a vida não é perfeita, os dias não são perfeitos, não dá pra planejar tudo e sair tudo a risca. Mas enfins... A estranha no ninho era eu...
    Quanto à religião, eu também estranhei a falta dela nas pessoas. Não conheci NENHUMA pessoa na Alemanha que frequentava a igreja em bases regulares. A questão que você mencionou dos impostos e da inflexibilidade me ajudaram a entender o porque... Acho que nenhum alemão que não paga o dízimo obrigatório se sentiria a vontade para entrar numa igreja... Você está coberta de razão.
    Eu, brasileira, flexível, aversa (até certo ponto) a regras, ia a igreja na Alemanha. Eu não pagava impostos mas sempre comprava uma velinha e acendia :)
    Beijos querida!
    Márcia

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  6. Nao mesmo Marcia, meio termo nao existe, eles sao extremamente inflexíveis :-/ Nesse ponto vc tem toda razao.
    Beijo amor

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  7. Interessante post Nina, eu não sabia desses detalhes da Alemanha.
    Sei lá se eles estão certos nisso, mas também essa 'bagunça' que povos como nós fazemos em quase tudo na vida, não leva a coisas boas, pelo contrário, obriga-nos a engolir barulho, atos públicos de total falta de respeito com o outro como vejo aqui no Rio. Um exemplo disso é quando a prefeitura, para fazer média, abre um lugar só para shows gospel com músicas até altas horas, encenação de pastores e pretexto para no final apresentarem seus parceiros políticos, geralmente sempre aparecem políticos nesses atos religiosos públicos. odeio isso!
    bjs cariocas




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