26/03/2012

No fogo das lembrancas

Esse caminhao que você vê na foto estava em frente a nossa casa há algumas horas.


Ele soltava uma fumaceira doida. Men at work! Nesse momento eles estavam preparando o asfalto em algumas partes da rua que  está sendo reformada. Entao o asfalto é a razao desse post.
Estranha inspiracao.
É que esse caminhao trouxe um cheeeeiro.
É que adoro cheiro de asfalto, sabe?  Essa coisa sendo feita na hora, quentinha,  saindo do forno. Estranhamente, eles resolvem fazer isso nas horas mais quentes do dia. Num país como a Alemanha isso nao é necessariamente ruim, mas...

Quando morava numa cidadezinha do Amazonas, esse cheiro de asfalto tomava conta das minhas tardes quentes regadas a café quente. Eu gosto do cheiro do asfalto tanto quanto gosto do cheiro de bombinha que menino solta em festa junina. 
O cheiro do asfalto me lembra de onde venho, onde está minha raíz.  E me lembra também a baixa qualidade de nossas ruas "asfaltadas". Me lembra o calor que emana da terra. A fumaca me lembra aquela que a terra aquecida libera quando comeca a chover. Sim, claro, o cheiro de terra molhada é bem melhor. Mas o do calor do asfalto e da bombinha também é gostoso.

Só a qualidade desse servico aqui e lá que é bem diferente.
Lá... aaahhh lá.

Lá as pessoas usam muita bicicleta e ao parar com a bike pra comprar um pao na padaria, pra ir ao correio, pra bater na porta de um amigo com o sol torrando a cuca, e o suor pingando no rosto, a bicicleta quase sempre cai. Cai assim, do nada e  de repente, sem ninguém ter encostado na pobre. O sol aquece o péssimo material que sao feitas as ruas,  o descanso da bicicleta faz um furo no asfalto e ela cai. Simples assim. Nos cantos das ruas, a gente pode ver vários furos no asfalto. Eu mesma já caí de bicicleta e fiquei com a canela toda ralada, porque o asfalto derreteu com o excesso de calor  dos meses mais quentes e formou algo como uma lombada. E lá fui eu, voando pelo ares como em câmara lenta, com a cestinha da bike soltando junto as verduras  recém compradas na feira, o cd player caindo junto comigo e se espatifando, o sapato indo prum lado, a bolsa pro outro, o olho comecando a querer lacrimejar pela dor ardida da canelinha sangrando e o povo todo olhando e quase rindo... ahh Amazonas, meu lindo.  Até nisso você me faz falta...

A cidadezinha era engracada. Quando colocaram o primeiro semáforo, foi a festa! Era preciso. Uma vez que as motos, bicicletas, carrocas, cachorros e até búfalos em disparada precisavam respeitar o trânsito, já que nao eram poucos os acidentes por falta de respeito às "leis"do trânsito. Entao, colocaram o semáforo. As pessoas ficavam perto, só olhado quem ia furar o sinal vermelho e quando um fazia, o povo gritava rindo: ei, tu tem que parar no vermelho, pega aquela  bicicletinha seu polícia!

* * *

As bombinhas de festa junina me lembram minha avó, na rua da minha mae quando eu tinha 6 anos.
De quando a gente fazia fogueira bem no meio da rua e esperava o fogo baixar, pra pular de maos dadas com as irmas e comadres de fogueira. Lembra a minha avó dizendo que a gente deveria deixar cair gotas de vela na bacia d´água pra saber quem seria nosso marido, ou furar com a faca o pé da bananeira com o mesmo objetivo.  Lembro dela contando das suas aventuras quando menina. Do pai  muito brabo. Lembro do fogo estalando na fogueira, dos olhos da vovó, do pentinho que ela sempre trazia preso ao coque e do fato maravilhoso de podermos ficar naquelas noites quentes até mais tarde acordados, sonhando com os futuros maridos.

E tem sempre esse cheiro de bombinha no ar na minha mente.
E tem esse cheiro de asfalto aqui hoje.
E na rua da casa da vovó nem havia asfalto ainda.
Mas tinha aquele barro seco. Que no calor fazia subir poeira e na chuva, trazia cheiro de terra molhada. Cheiro bom.

A vida inspira.
Independente de onde você esteja, nao é mesmo?

14 comentários:

  1. Acho que é a primeira vez que sou o primeiro a fazer um comentário nesse seu frequentado blog.
    Achei bem legal o modo como você falou do cheiro do asfalto e também dos "calombos" que são formados por conta dos dias quentes. Aqui, na cidade onde moro, é igualzinho. Mas, poxa, ainda prefiro o cheiro de terra molhada (que deve ser bem frequante no Amazonas também).

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  2. Parece que sou eu escrevendo, você tem esse talento de nos fazer pensar em nós profundamente e sentir saudade do que não volta mais.

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  3. Pois é, voltei no tempo .....
    Mas cheiro de asfalto gosto não. E aqui não é asfalto, é água preta rsrsrs Sabe, aquela para enganar que está asfaltando...
    Gosto mesmo é de cheiro de chuva (terra molhada).
    Boa semana.
    Beijos.

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  4. Oi querida Nina!
    Asfalto?!? amiga, aqui na BA está um calor danado, se tivesse um caminhão parado em frente da minha casa carregado de asfalto acho que iria correr daqui, pois não sei se resistiria a tanto calor... não sei até quando esse calorão vai, mas estou torcendo para manerar um pouco... rs rs rs

    Um grande beijo e boas lembranças pra vc! fiquem com Deus!

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  5. Nina, você sabia que o asfalto alemão é um dos melhores do mundo, quiça o melhor ?
    Antigamente eu saberia te dizer qual a diferença em centimetros do asfalto dai para o daqui mas infelizmente o DNA (Data de Nascimento Antiga) não me permite mais.

    Obrigada pelo carinho e atenção .Você é um amor!

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  6. Oi Nina!
    não curto cheior de asfalto não... Mas chuva molhada...ah! isso sim é bom...
    Gosto é de ler seus posts, já pensou em escrever um livro?? Sério, você escreve muito bem Nina...
    beijão

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  7. Hahahah sabe que as vezes leio post de algumas blogueira e penso, um comentario de duas linhas e pronto vou ler o proximo, por que eu curto ler bem mais que escrever, e se escrevo demais me demoro por ler os outros, rsss
    Mas vc me faz ser diferente semmmmmpre, é tao engracado, é dificil te ler e nao sentir sebo nos dedos, me disparo a escrever um post no post da Nina. rsss
    E é com sebo nos dedos que te escrevo agora, sem pensar muito no tamanho por que vc me aguca a inevitavel vontade de te escrever sempre...
    Materializei aqui a cena da queda de bike, eu tenho marcas de bike até hoje, fui tao atrasada em tantas coisas de minha vida que andar de bike foi uma delas, rss vim aprender aos 11anos, e da pior forma uma ceci(lembra da ceci?) era o sonho de toda adolescente kkkk eu ganhei uma usada de segunda de quinta mao rs eu acho de tao velhinha que era, nem freio tinha, lembro que eu descia ladeiras abaixo com minha ceci gritando, SAI DA FRENTE QUE NAO TEM FREEEEEEEIO!!! rsss
    O ruim é que minha rua nao tinha asfalto entao as quedas eram na terra batida mesmo, rss
    Ri em pensar que andar de bicicleta na rua da pracinha principal da cidade era o luxo da minha vida, por que ali era a unica rua asfautada, e ali tb mostrava minha bike pra galera, rss mas ali eu nao podia cair ia rir, entao eu treinava na terra batida da minha rua e ia me amostrar na rua asfaltada da pracinha, ô tempo bom!!!!
    A vida era simples demais, inocente demais, calma demais e por isso sempre acredito que fui mais que feliz ali!
    Eu senti o cheiro de asfalto ao ler seu post, por que pra mim ele era um luxo, só os ´´ricos´´moravam em ruas asfaltadas nos meus 11 anos, isso me fazia lembrar que eu era nao tao rica, por que minha rua nao era, rsss e que eu via os ´´ricos´´lavando suas ruas com magueiras, em pleno solzao quente, o cheiro subia junto com a fumaca....
    Já eu molhava minha rua com baldinhos de agua, pra poeira nao entrar dentro de casa quando os carros passassem, isso ficava na minha cabeca, rico sente cheiro de asfalto molhado, pobre sente cheiro de terra molhada, rss
    Hoje minha mae ainda mora na mesma rua, e com 29 anos, sei que ela é asfaltada, ficamos ricos hehehehe!!!
    Lembro que minha mae me ligou ha uns 6 anos atrás, dizendo...Filha estao asfaltando nossa rua, quando vc chegar aqui vai ver a diferenca!!!
    No ultimo Dezembro fez 7 anos que eu sai dessa cidade, chama Marabá no sul do Pará, ganhei outras estradas na vida, algumas até de ´´ricos´´com linnnndo asfalto, mas jamais deixei de ser a menina que molhava a rua de terra batida, só pra sentir o cheiro de terra molhada e poder andar na minha bike ceci!!!
    Um grande cheiro Nina mô bem!!

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  8. É interessante como nossa imaginação funciona... Um cheiro traz tantas lembranças e deu um lindo post. É assim,né? Legal! beijos,chica

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  9. Nna, você tem um tesouro inigualável na sua mente que sao as lembranças, e neste coração, que são seus sentimentos.Munida dos 2 você ganha o mundo!
    Obrigada pelos posts sempre cheios de significados :)

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  10. ah, eu detesto cheiro de asfalto. eu estou com algumas obras aqui perto, prédios enormes, bate estacas, não anda fácil trabalhar. beijos, pedrita

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  11. Asfalto fazer calombo por causa do calor?!! Nossa, nunca tinha ouvido essa... e eu reclamava do calor no Mato Grosso do Sul...

    Ahh e essas lembrancas que vem com os cheiros são tão boas né?! Eu volta e meia tenho... em especial com cheiro de pão assando em forno a lenha... sempre lembra minha vó...

    beijinhoss

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  12. Nina
    Por isso eu te admiro. Voce faz de uma coisa banal um conto cheio de encantos.
    E nos faz procurar na nossa vida algo que tenha um parentesco.
    Ou uma grande diferença!
    Eu nao sei andar de bicicleta. Não aprendi porque meus irmãos estavam tomando conta de mim e meus pais disseram que se eu machucasse eles iriam apanhar.
    Eu nao caí, mas nao aprendi.
    Tem uma foto minha na bicicleta com rodinhas. E uma graça!
    Moramos em cidades que o cheiro do asfato nao é percebido, pois são cidades de temperatura fria.
    Uma delas custou a ter asfalto. Era de paralelepipedo.
    Mamae conhece Manaus. Papai, mamae e meu irmão foram fazer um passeio por lá.
    Mamae nao comprou nada quando estavam viajando, mas chegou arrependida e quiz um meio jantar estrangeiro e talheres dourados e prateados.
    Havia um moço que trabalhava num banco lá e comprou e enviou por aviao.
    Chegou inteirinho.
    Um presentao que papai deu para mamae.
    Nossa quanta coisa escrevi!
    Me desculpe
    com carinho e amizade de Monica

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  13. Obrigado pelo carinho da sua presença!
    E pelas palavras doces !Busco fazer tudo o que está ao meu alcance , não é uma tarefa fácil , mas extremamente compensadora!

    Vc escreve muito , parabéns pelos textos!

    Meu carinho para ti!
    Bjs

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  14. Olá Lembranças que chegam pelos sentidos. São marcas que ficam e que retornam pelas lembranças.
    bjs

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