16/03/2009

Distúrbio do Déficit de Atenção

"Todo dia era sempre a mesma coisa. Mal começava a dar a sua aula, a professora primária se via às voltas com as reações em cadeia provocadas na classe por Flavinho. Aqueles menino endiabrado e, ainda assim, adorável, apelidado pelos colegas de "o Pestinha", menos por ter o mesmo cabelo liso e acobreado do protagonista do filme homônimo, porém, mas pelo mesmo comportamento. Ou melhor, falta de.
Seus movimentos eram mais rápidos do que o olhar da professorinha podia acompanhar, restando a ela sentir o deslocamento de ar por ele provocado. Popularmente falando, ele deixava um "ventinho" por onde passava, além de causar enorme ansiedade à pobre "tia" que, além de todos os afazeres, ainda precisava localizar o menino em aula, já que sentado quieto em sua carteira certamente não estaria. Isso sem falar na bagunça generalizada, os "crash", "tums" e "aaiis" que faziam seu coração disparar.
Sim, ela já tinha ouvido falar em meninos assim na faculdade de Pedagogia. Ele só podia ser hiperativo! Precisava falar com a psicopedagoga da escola, pois ele davia ter o chamado Distúrbio de Déficit de Atenção.
Totalmente preocupada em por fim à guerrinha de bolinhas de papel iniciada por Flavinho, a jovem professora estava alheia por completo à menina sentada na fila da parede, lá pelo meio da sala, olhando pensativa pela janela e que parecia não se dar conta da divertida bagunça que campeava entre seus coleguinhas. Todos os dias eram assim e aparentemente não havia por que se preocupar com aquela menininha, que mal se mexia em sua cadeira. Mas o que a professora não sabia era que por debaixo da antiga carteira escolar de madeira escura, inteiriça, um par de pezinhos balançava irrequieto, na mesma velocidade dos pensamentos de sua dona, que... "adoraria estar cavalgando sobre aquela nuvem. Ela parece um camelo do deserto. Ou seria um dro... um dormedário... Ah, não sei! Mas um tem duas corcundas, outro tem uma. O daquela nuvem só tem uma. E deve ser bem macia tipo algodão... e eu veria tudo pequenininho lá de cima..." Então seus olhos captaram algo dourado movendo-se por sobre o muro da esola, lá embaixo. "Nossa! Nunca vi um gato tão gordo! E amarelo! E lindo! Parece o Pikachu! Como naquele episódio em que ele pulava a cerca..."
A menininha sonhadora tinha os movimentos do corpo um tanto contidos, mas sua mente saltava rapidamente de um devaneio a outro, ainda mais veloz que as perninhas incansáveis de seu colega "pestinha". Seu nome só era lembrado na hora da chamada. Absorta em sua terra fértil imaginação, ela estava alheia ao ditado que a jovem professorinha estava começando a passar. Por causa disso, seria mais tarde duramente repreendida em casa e, muito nova ainda para relativizar as coisas, aceitaria de pronto todos os adjetivos com que seus pais a definiam: preguiçosa, relaxada, "abilolada".
Invisível para sua professora, que, ocupada demais com Flavinho, só a notava momentaneamente, quando percebia sua desatenção aos deveres em sala de aula, ela atravessaria os anos sofrendo com sua distrabilidade crônica, ainda que criativa, perdendo auto-estima, à media que ganhava altura e peso. E hormônios.
Seu colega Flavinho, diagnosticado precocemente, não precisou passar pela mesma carga de sofrimento."

Dra. Ana Beatriz B. Silva

* * *

Quantos de nós fomos assim? E quantos de nossos filhos não o são? Xingados de irresponsáveis e preguiçosos pelo decorrer dos anos, sem saber que se tratava de uma "doença"...

Estou lendo o livro da Dra. Ana Beatriz B. Silva, Mentes Inquietas, comprado com a Sandra, que mora aqui e vende livros usados a ótimo preço, que fala sobre pessoas que sofrem de DDA, "Distúrbio do Déficit de Atenção- Uma combinação explosiva de distração, impulsividade e hiperatividade.

11 comentários:

  1. Nina, o livro parece ser muito bom mesmo. Já tinha visto ele ser citado em outro blog, por esses dias.

    O que eu fico preocupada é que ultimamente se tem colocado "a culpa" na doença DDA sem mesmo saber se a criança realmente apresenta DDA.
    Precisamos ficar de olhos bem abertos mesmo e dar o diagnóstico certo para poder fazer o tratamento devido.

    Beijocas!

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  2. Vc está coberta de razao Cacá e ela fala sobre isso no texto tbm.

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  3. Esse livro e otimo! Realmente quando tem uma doenca "na moda" todos diagnosticam como tal. Meu sobrinho foi diagnosticado com isso quando tinha 1 ano e meio de idade, mas ve se pode? O diagnostico dessa condicao so e dada a partir dos 6 anos. Mas enfim, os medicos dizem que agora ja tem estudos que dizem que pode dar o diagnostico antes. E o disturbio deficit de atencao pode estar ou nao associado com hiperatividade. E muita coisa! Outro disturbio que estava "na moda" era o Disturbio Bipolar, quando comecei a ouvir o nome, todo mundo ja tinha! Assim como TOC.
    Quero dizer, tudo toma tempo, e serio, para fazer um diagnostico nao e so prever, tentar associar algumas caracteristicas, tem muito mais. O texto mostra como isso e importante! O que pensamos ser organico, pode ser comportamental, ou o que pensamos ser comportamental pode ter caracteristicas organicas.
    O livro e mesmo uma otima dica!
    Otimo post!
    =]

    bju bju

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  4. Nina, que indicaçào útil! tenho uma amiga que está se deparando com o mesmo desafio. Vou pedir para ela passar por aqui. bjs

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  5. Não nego a existência deste e de outros Síndromes, que afectam adultos e crianças, já que é normal, com os avanços que a medicina vem tendo, que nos surjam ao mesmo tempo novas soluções para problemas antigos e novos problemas sem solução.
    Mas, de facto, e sem ter conhecimentos científicos que me possam levar a esta questão, pergunto-me, muitas vezes se estes diagnósticos não serão mais do que sintomas da vida actual e do stress que os pais vivem e implicitamente passam aos seus filhos.
    No fundo, o que eu indago é se este Distúrbio do Déficit de Atenção, não será muito mais um Distúrbio de Apelo à Atenção, de que muitas crianças sem dúvida sofrerão, pelo facto de, entre escola, infantário e ATL, mais fins de semana agarrados a pcs e playstations, pouco conviverem com os seus pais e muito menos praticarem actividades onde possam explodir a sua energia natural...

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  6. Deve ser bom esse livro.
    Tenho muita curiosidade sobre DDA, pois já fui diagnosticada com isso,mas nunca procurei tratamento.
    Ninoca, num gostei do novo template, num tem muito a ver contigo.
    Beijocas

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  7. Nossa mana, tu nao tens nocao do quanto lutei com isso. Eu era professora em escola publica e tirar o rotulo desses meninos nao era fácil. Comecava com a família e terminava com o deficiente centro de apoio a criancas especiais de Belém. Eu era conhecida lá pro querer taxar todo aluno preguicoso de deslexo ou DDA. Mas nao sossegava enquanto nao tivesse um diagnostico decente nas maos!

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  8. Quando o Caio era pequeno, ele vivia sempre no seu mundo, era(é) muito esperto, muito inteligente mesmo, do tipo que ouvindo uma vez só a explicação já pega o fio da meada, é incrível, mas ele faz isso. Só que, voltando ao começo, quando era pequeno se distraia muito fácil, rápido mesmo e era comum não entender o que a professora havia dito.
    Preocupados eu e maridones, o levamos a alguns médicos, e um deles nos falou a respeito do DDA, que felizmente não era o problema do Caio, mas uma fono descobriu por meio de testes que o Caio tem um ouvido que constantemente têm aquela sensação de serra(quando o ouvido parece entupido), cuidamos disso com muito cuidado e melhorou 100% a atenção dele.

    Beijins:*

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  9. Me metendo em comentários alheios: eu lembro do Caio e seu mundo [na verdade lembro mais do que todos falam disso]

    Sabe, acho que não só que tem problema, mas todo mundo precisa de atenção né?!

    Beijos*

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  10. Como fono tenho contato c/ algumas cças q/ são taxadas e tomam medicamento, pois como a Chris falou é diagnostico q/ virou "moda", e temos q/ ser bem criterisas, insistir c/ os médicos.
    Um forte abraço.

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  11. Sonia, eu tenho isso!! e é muito ruim, pois não consigo ouvir minha própria voz...Sou professora e, é horrível pra dar aula. como foi que vc fez com caio?
    PS: Nina, tô usando teu espaço pra consulta... pode????
    bjos às duas...

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