20/02/2009

Éramos todos sapatos velhos??

Quando eu tinha 17 anos, tinha saído de um antigo emprego e ficar desempregada já estava me tirando do sério, até porque já estava acumulando algumas dívidas. Até que surgiu um emprego que eu nunca havia pensado em aceitar, mas como tinha que pagar as contas, afinal minha mãe sempre nos ensinou a honrar nosso nome e mantê-lo limpo na praça, topei. O trabalho? Montadora numa fábrica de televisores no Distrito Industrial (Zona Franca de Manaus). Trabalho esse terrivelmente monótono.

Eu estava cursando o segundo ano do segundo grau (atual ensino médio),estudando à noite, me preparando para o vestibular. O trabalho começava às 7 horas da manhã, mas como éramos (eu, minha irmã mais nova que eu e uma prima) as primeiras a serem pegas no ponto do ônibus da empresa, precisávamos acordar as 3:30 da manhã! Todo dia. Eu não suportava aquele trabalho, foi o pior que tive na vida e depois de 3 meses pedi demissão. Minha irmã continuou e logo subiu de cargo, ficando lá por muito tempo ainda. Eu tinha sorte porque meu único problema eram as pequenas contas a pagar de uma moça de 17 anos, sem grandes problemas pra resolver, e por isso, pude me dar a chance de sair quando desejei... Diferente de outras pessoas que ali trabalhavam.

Como eu poderia continuar num lugar onde os funcionários eram tratados como inferiores? Com uma comida horrível! Certa vez, metade dos funcionários (incusive eu) tiveram uma infecção intestinal! O ambiente de trabalho era muito ruim. O trabalho altamente metódico. Os supervisores muito mal educados e que se consideravam superiores a todos. Eu, nos 3 meses que passei ali, fiquei famosa por ser a montadora que só fazia as coisas se me pedissem por favor. -
„Xii, com essa daí só é na base do por favor“, comentavam os supervisores entre si.

Com meus 17 anos não conseguia entender como as pessoas podiam se sujeitar a tanta humilhação. Tá certo, muitas eram mães de família e precisavam do trabalho, o que me deixava profundamente chateada era o fato de os supervisores usarem esse fato para tratá-las mal, com o mínimo de respeito.
Todos ali sabiam que eu me preparava pro vestibular e me admiravam por isso, já que ninguém ali estudava mais. Muitos haviam desistido dos estudos.

Tínhamos um dia muito duro de trabalho, que ia das 6:30 (hora do café) até as 15:00. Salário baixo, péssima alimentação, pouco tempo pro almoço, e trabalho metódico demais, presos num lugar que mais parecia um caixote refrigerado.

O tempo que passei ali foi tempo de pequena revolução pra mim e pra aquelas pessoas, que me ouviam falando de estudos, livros, respeito dentro de casa com maridos e filhos, e melhores condições de trabalho na fábica. Criei alguns poucos inimigos, apesar disso, deixei o emprego com pessoas pedindo pra eu continuar, com mulheres me prometendo voltar a estudar, com supervisores me dizendo: „tchau senhorita Por favor e Obrigada! Sentiremos sua falta!"E um rastro de carinho, música e livro no ar que as colegas de trabalho respiravam.

Todo dia eu levava meus livros pra ler no intervalo do trabalho e durante o trabalho, sentadas nas esteiras do trabalho rotineiro, eu cantava baixinho enquanto ouvia os problemas familiares das colegas e montava as pecinhas minúsculas que formariam uma tv. Quando não cantava a música, as meninas diziam: „Canta Nina, canta a musiquinha do sapato“...


É uma pena que existam tantas pessoas que precisem aceitar trabalhos desagradáveis porque não tem outra alternativa na vida. E o pior é ver que algumas pessoas pensam que por terem estudado um pouco mais ou por terem tido mais sorte que outras, possam ter a liberdade de desrespeitar outros menos favorecidos, que estão abaixo de alguma coisa nessa escala muitas vezes ingrata e injusta

14 comentários:

  1. Ai Nina, me fez chorar com esta música! Não sei te dizer exatamente o que ela me lembra, mas sei que me lembra de algo bom, que ficou no passado.
    Sabe, eu também larguei o trabalho de corretora. Não quero mais ser explorada na minha vida!
    Tava trabalhando direto, até fim de semana, sem hora pra chegar em casa, e sem ganhar nada, pois só ganharia quando vendesse.
    E não é tão fácil assim vender um imóvel, não é uma calça jeans!
    Torce por mim, Nina, pra que eu consiga um estágio legal na minha área.
    Pelo menos uma vez na vida queria ter um emprego do qual gostasse!
    Quanto ao carnaval, vou para a praia descansar!
    Nos falamos na volta!
    Bjo, amo tuuuuuu!!!

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  2. Bom carnaval!!
    Um pouco de confete pra ti!
    ..::::..:::...:::::...::::..:::
    Bjokas!!!!

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  3. Antes de eu entrar aqui onde estou não ficava em empregos e o povo dizia que eu era preguiçosa e que viveria dependente dos outros, mas não ra nada disso, eu apenas não suportava não fazer nada, ou ter pessoas horríveis, enfim, uma série de coisas que eu Não sabia lidar. Hoje eu trabalho num lugar que eu até gosto,mas tem pessoas ruins, coisas ruins e eu tive que aprender na marra a lidar com isso, mas é diferente estar aqui do que nos outros lugares em que estive.
    Amo essa música, sou fã demais deles!
    Bom Carnaval Ninoca!

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  4. Ola Nina
    Passei para uma visita e desejar um otimo e longo final de semana

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  5. Nina, infelizmente, as pessoas sao assim. Nao se detêm que um dia a morte vem e leva todos sem distincao.Beijos e dais felzies

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  6. Eu trabalhei num banco e amava meu trabalho.Achava o salário justo, os colegas companheiros e o chefe simpático e educado. Até que um dia a chefia mudou e entrou uma pessoa que antes era uma de nós. Era insegura, grossa e déspota.
    Acabou pra todos a paz e a harmonia que antes reinava naquele local de trabalho.Mas ela não era respeitada porque percebíamos sua insegurança,sua falta de preparo , sua ineficiência.
    Mas eu pude perceber como a maneira de lidar e tratar com os subalternos faz um ambiente ser mais saudável, prazeroso e produtivo ou não.

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  7. Linda a forma que você contou essa parte da sua história, essa música lembra tantas coisas maravilhosas na minha vida, mil bjs

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  8. Nina querida, desde pequena vc já fazia uma revolução do bem né. :)
    Parabéns!!
    O mundo precisa de mais pessoas como vc, que batalham pelo bem e pela igualdade.
    E eu gosto bastante dessa música.
    Uma beijoca bem grande e um ótimo domingo pra vcs! (aí é Carnaval tb?? aqui em Duss é!!)

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  9. Ah Nina vc é um barato mesmo né?
    Concordo com a amiga aí de cima, vamos fazer uma campanha, uma Nina para cada cidade, já dá uma ajudinha boa não acha? rs, brincadeiras a parte, mas você é muito do bem!
    Deixei comentário no seu outro blog do selinho que indiquei vc "este blog é uma jóia"
    beijokassss

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  10. Olá!
    Nina, já percebeu que uma pessoa pode fazer a diferença num ambiente hostil?
    Pessoas com luz iluminam qualquer treva...
    Querida, tem selo e promoção lá no blog te esperando.
    Boa semana.

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  11. E tá cada vez ficando pior, sabe Nina.. Recusei tres empregos no Distrito por causa das más condições de trabalho, claro, a minoria das empresas são dignas de reconhecimento, como a MASA, que é um excelente local pra se trabalhar.. sinceramente, espero que isso melhore, por que cada vez mais as pessoas tao reclamando de trabalhar no Distrito, mas se submetem a ele por quem tem gente pra sustentar em casa.. LADO RUIM esse nosso, viu!!

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  12. As vezes a impressao que tenho é de ter passado a vida inteira assim...

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  13. Nina, é duro mais é verdade. Existem pessoas que aceitam um trabalho onde sao humilhadas em troca de um salario baixo, mas é um salario. E existem tambem outras, que adoram mandar nos outros e humilhar. Bj

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  14. Olá!!

    €stou passando nos blogues amigos para convidá-los a participar da Blogagem Coletiva sobre “INCLUSÃO SOCIAL” que acontecerá no próximo dia 09/03/2009.

    Ficarei muito feliz de poder contar com sua participação!
    Se for participar, por gentileza, deixe um recado no blog Esterança.

    Desde já, muito grata!

    €ster

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