21/01/2009

Panfletagens e pavulagens!

Nos anos 80 eu era uma mocinha muito tímida. Era fã (como sempre fui) das minhas duas irmãs, que eram lindas, corajosas, cheias de amigos. Eu era só uma mocinha tímida, leitora voraz de livros e muito sonhadora. Era isso o que eu mais gostava de fazer. Ficar no quarto, que era dividido com as duas irmãs, ouvir música, ler e ao fechar o livro, sonhar. Sonhar com o mais atual cantor de sucesso, que podia ser Michael Jackson, ou o Ray Reyes Leon, do Menudo, ou ainda com muitas viagens que queria fazer. Eu queria estar longe dali, por isso tantos sonhos.
Mas eu não podia sair de onde estava, aquela era minha casa, aquela era a minha vida. Eu imaginava que se estivesse em outro lugar, poderia recomeçar a vida que estava apenas acabando de começar, imagina, recomeçar com 13, 14 anos... Mas eu tinha mais idade e experiência dos anos vividos do que aparentava e trazia muitas dores e alegrias também.

Nos anos 80 eu era então essa menina tímida carregada de tristezas e medos, mas essa timidez não me impedia de curtir as músicas, as roupas exuberantes e coloridas, as saídas com alguns poucos amigos, os amigos na escola, as idas a discoteca, os namoros furtivos...




Tudo era muito bem aproveitado pela mocinha que queria ser como as duas irmãs e a prima Kit, a prima que era mais velha que a gente e que tinha a boca em forma de coração, que tinha um namorado incrível, que falava apaixonada das coisas que vivia. Eu queria ser como elas, mas não dava, não rolava, eu era eu, elas eram elas, e acabou aí. Além disso, eu precisava despertar pra vida, o Menudo já tinha acabado pra mim e eu já estava decidida a deixar o Ray partir.
Foi quando resolvi ser eu mesma.
Comecei a me vestir com outras roupas, umas roupas meio estranhas, coloridas e longas, usava vários colares, pulseiras e sandalinhas de couro, deixei o cabelo crescer muito, namorei um hippie de praça, daqueles que vendiam colares em troca de um sanduíche, ficava com ele antes de ir pra escola, que já era à noite, e depois da aula também. Lá na pracinha, lá no centro da cidade de Manaus, ajudando a vender as coisas que ele fazia. Ele era louríssimo, de um olho azul que nunca vi antes, cabelão enorme, encaracolado, bonito mesmo! Apesar de meio fedorento e argentino, rsrsrs... Minha mãe ficava horrorizada comigo e olhava meio torto pras minhas roupas longas de estilo indiano, meus colares e minhas faixas no cabelo, meus mil brincos, minha aversão a usar esmalte, a tirar sobrancelha, essas coisas que as mocinhas faziam. Mas por favor, eu tomava banho e não tinha suvaco cabeludo!

Depois, meu envolvimento leve com política e um novo namorado. Agora um roqueiro! Fumador de maconha, inteligentíssimo, bonitão. Também louro, olho azul e um ano mais novo que eu, filho de uma professora universitária da Universidade Federal do Amazonas.
Eu não virei roqueira, não curtia roupas pretas e muito menos maconha, mas gostava dele e ele de mim. Iamos juntos pras passeatas do PC do B, fazíamos manifestos nas ruas, pixávamos os muros de madrugada com nomes dos nossos candidatos políticos, fugíamos da polícia, íamos a congressos e reuniões do partido, tudo juntos, juntos com sua mãe maravihosa que me ensinava sobre política, revolução, Freud, e outras coisithas.
Foi um tempo muito bom!
No dia dessa foto aí embaixo, era dia de eleição. Já era finzinho dos anos 80, e era também a primeira tentativa de Lula à presidência. Minha mãe, padrasto e toda a família eram contra o Lula, mas o Lula na época parecia mesmo ser o cara certo. Apesar de ser do PT, apoiamos o Lula e saímos pro trabalho em campo, durante todos os meses que antecederam a eleição. No dia propriamente dito, saí de casa cedo e voltei tarde. Minha mãe não sabia onde eu estava... e não contei pra ela que tinha trabalhado em boca de urna pelo inimigo número do Brasil na época, o Lula, do PT! Do PT!

No outro dia de manhã ao acordar, minha mãe me olhou da porta da cozinha e falou com uma cara brava que me deu medo: "Então era isso que a mocinha estava fazendo ontem o dia todo???" Na mão dela, o jornal mais lido no estado do Amazonas e lá estava eu, numa foto enorme, na primeira página do jornal, com a manchete: "Apesar de proibida, boca de urna permanece!"


ahahahahaha
Minha mãe e padrasto quase morreram de vergonha e eu fui trabalhar. Tinha a sensação de que todos na rua estavam me olhando... e ao chegar na escola à noite, todos me olhavam curiosos, uns adorando o que fiz, outros, me jogando na cara: "Pô Nina, Lula? Qual é?? Sai dessa!" Na casa do namorado, fui recebida com sorrisos e abraços entusiasmados. Nunca vi um namorado tão orgulhoso. O Lula não ganhou. Mas a gente sim.
Ganhamos ainda mais confiança um no outro, apesar de o namoro já estar perto do fim, porque me apaixonei pelo meu chefe (argh!) e abandonei meu namoradinho apesar de não ter esperanças com a minha nova paixão (com o qual acabei namorando depois disso) mas minha dignidade não permitiria que eu mentisse e enganasse o coração do meu querido Airton.
A mãe dele não sabia se chorava pelo fim, ou se sorria ao me agradecer pelo que, segundo ela, eu havia feito pelo filho: antes, um menino meio alienado, que só ficava fumando maconha no quarto fechado ouvindo Sepultura muito alto, agora, de cabelo mais curtinho, estudioso pra caramba, usando roupas mais coloridas, e agora, um ex fumante.
Eu?? ahh eu tava noutra.

Fizemos vestibular juntos, eu passei, ele não. Mas ele tinha outros planos, e conseguiu entrar um ano depois na faculdade!
Ela virou pró-reitora e me defendeu na casa do estudante universitário quando eu grávida, quase fui expulsa do convívio com os "certinhos" da república por ser um mau exemplo: imagina, uma moradora grávida!!! E ela me defendeu contra um único machista. E eu fiquei lá até o oitavo mês de gravidez. Eu, o papai Ruy (pai dos meus filhos) e minha Laurinha...

A vida mudou. Mas essas coisas estão ainda impregnadas em mim. Sou quem sou graças a menina tímida, que tentava descobrir quem era ela afinal.
Sou quem sou quando aprendi a me encontrar devagar e na porrada, levada de vez em quando pela vida, porrada que me levava ao chão é bem verdade, mas que me encorajava a levantar a cada caída, aprendendo a me reconhecer, me ajudando no meu descobrimento de mim mesma.
* * *
Lembrei dessas coisas ontem, ao assistir um pouco da posse do Obama... até sonhei com panfletagens, músicas, fuscas velhos e namorados antigos...

28 comentários:

  1. Riquíssimas essas memórias, Nina.
    É como você diz, são elas que fizeram de nós as mulheres que somos hoje. E ainda bem que optámos por lutar pelo que acreditávamos.
    Beijinhos.

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  2. Nina, querida!!!
    Nossa, eh incrível como vc tem suas lembranças tão vivas... não sabia que vc tinha vivido tudo isto antes da faculdade...
    Eu te adoro!!!
    Bjs e fica com Deus!!!

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  3. Nina meu amor!!
    Saudade!!
    Não tenho tempo pra ler, leio mais tarde o post. Tô trabalhando como uma louca! Ontem trabalhei da 9 da manhã às 9 da noite!
    E não posso entrar na internet no trabalho, só para procurar imóveis!
    Hoje não vou trabalhar tenho médico e umas coisas pra resolver na rua, por isso consegui vir aqui correndo!!
    Nossa, tô exausta, mas tô adorando!
    Bjo, amooooooo!!!!

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  4. Ai Nina! Sonhar com o Michael Jackson e demais!! kkkkkk
    Agora qto ao pessoal alternativo eu sempre tive uma queda por eles tbm, mas o amore e normal.=D

    Poxa mas a sua historia e muito legal!! Uma sogra para ensinar coisas bacanas, ate Freud! Pixar muro e com o nome do partido e politico (nunca imaginei)!! ehehehehe
    E o maximo: sair na primeira pagina do jornal, com materia de boca de urna! kkkkkkk
    Mas vc ficou linda!! Uma sereia de lindos cabelos! Quando passa a gente ri e ainda vira uma historia e recordacao muito divertida de lembrar!
    Pois e, sao coisas que nos fazem formar, crescer e se conhecer! A verdadeira universidade, a vida. Nossas experiencias, algumas boas, outras ruins, que nos fazem crescer, batalhar, mudar. Essa Nina meio hipponga pode ter ido embora, mas em partes. Pq fica o conhecimento, as experiencias, o afeto pelas pessoas.... Acredito que o melhor fica e amadurece.
    Te admiro Mana!!

    bjuu bjuu bjuu

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  5. Linda a história de sua vida, uma lição de coragem, determinação e sonhos.
    Bom quando se tem o que recordar e com o passado sentir saudades, bjs.

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  6. Nina, riquíssimo seu baú de memórias.
    Já pensou em escrever um livro?
    Eu compraria.

    bjux

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Eu ri.Muito! :D
    Eu sou como você era:quietinha,trancada no meu quarto com minhas músicas,meus livros e meu computador(modernidade...).Tanta gente reclama de quem é assim,não?Parece que e crime você ser introspectiva,você querer se descobrir.Uma boa lição que você dá com suas histórias é que só aprendemos vivendo,adquirindo coragem para sermos nós mesmos.

    Achei divertido você ter resolvido assumir sua personalidade!Foi aí que a coisa se desenvolveu,a moça cresceu.

    Ah,minha mãe disse que colocou as cartas bem no comecinho de janeiro(as que escrevi em setembro),e as três-a sua,da Laura e da Carlinha-eram registradas,pra não se perderem.Se não chegaram,é realmente estranho!

    O resultado da UFRJ está quase chegando,vou avisar no blog quando sair.UERJ,não fiz a 2ª fase(mesmo passando).UFF,não passei pra 2ª(zerei Física).Unirio,fiz "altas cagadas" na 2ª fase.Dá pra acreditar que só tenho chances no único lugar para onde queria ir?Tomara que eu passe,mas se não passar,só o fato de não haver mais escola já me acalma.

    Beijos :*

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  9. Não sei pq,mas vc me lembrou Olga Benário e a música "eduardo e Mônica"da Legião Urbana.
    Você é música, você é poesia, você é história para mim, você é o exemplo de que se pode errar, arriscar, batalhar e conseguir.
    Sou sua fã, você sabe.
    Ah! Essa última foto sua é a minha predileta ^^

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  10. Me lembrou Mário Quintana:
    'Dizem que sou tímido. Nada disso ! sou é caladão, instrospectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?'
    Beijos muitos.

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  11. Nina,não fui quietinha nunca, tb fiz panfletagem pela UNE , mas não me liguei nunca em partidos, até hoje sou assim, não gosto de política, mas na universidade, onde fazia historia,participava ativamente das loucuras pré revolução. Felizmente qdo a revolução chegou já estava casada e... c alguma imunidade, pois casei c militar e fui p Belém, onde passei os piores anos. Vi amigos serem abatidos e presos, além dos q sumiram.Época dura e trágica. Vivi dois anos entre revolucionários presos em Valdecans, foi louco, mas acho q é mto bom termos do q lembrar. Sempre q penso nesta época vejo q fui premiada c filhas calmas e q nunca me deram problemas. Sempre contei meu passado à elas, não como incentivo a fazerem minhas loucuras, mas talvez, p mostrar de nada mudou no mundo e tantos morreram!!!! Vamos ver se Obama vai resolver algo??? Acho mta responsabilidade p um homem só, enfim!!!!
    Bjks
    PS: realmente a minha Lu sempre foi esperta!

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  12. MAna eu mandei um e-mail proce!=]
    bjim

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  13. Que história versátil !
    Cara, achei o máximo aquela foto no jornal, parece coisa de filme...
    rí muito....
    Já não falei que sua vida dá um livro ?

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  14. Nós vivemos a mesma época, com experimentos semelhantes... situações iguais, músicas semelhantes, época boa!

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  15. Boca de urna para o Lula????
    Eu votei nele também em 89, era a saida, quem mais tinha ali para se votar??

    Participei do Grêmio da escola, mais como ouvinte do que atuante mesmo, mas era um barato ficar falando de politica com a rapaziada.

    E você hein dona Nina, só namorando os loiraços do pedaço, tá explicado o porquê de você estar na Alemanha heheheh

    Ao contrário de você que foi timida eu era a própria da Tina Pepper(personagem da Regina Cazé, numa novela qualquer), só que eu era muito grossa, hoje eu não sou mais heheheh

    Se a idade não me engana, hoje eu vi o nome de sua cidade(Itacoatira), numa propaganda do programa Menu Confiança do GNT, vou ficar de olho pra ver do que se trata...

    Beijins:*

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  16. Nina, história linda e memórias que me levaram junto com vc!!!!!!
    Adorei, adorei, adorei o post.
    Bjus!

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  17. Oi Nina, menina quantas coisas legais você fez!!! Viveu suas fases intensamente, e isso é muito lindo! Eu quero, daqui a um tempo, poder olhar pra traz com essa mesma satisfação, esse mesmo sentimento de ter vivido bem, que vc expressou nesse post!
    Você simplesmente viveu, fez o que tinha vontade e o que achava certo e isso é um grande e bom exemplo!!!!

    Cada dia gosto mais de você !!!

    Bjãoo

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  18. Nina passa lá no vivendodehistorias e pega um mimo p vc com carinho,Bjks

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  19. Adorei conhecer um pouquinho mais sobre você, sobre sua história de vida!!!
    Parabéns!!
    Obrigado por compartilhar conosco!
    Grande abraço e Beijinhos!
    Thaís M M
    thaism.m@ig.com.br

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  20. Oi Nina , q/ interessante, nunca pensei, de acho tão comportadinha...
    Acho legal vc compartilhar sua história.
    Um forte abraço, Rosa Mônica

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  21. Oi Nina , q/ interessante, nunca pensei, de acho tão comportadinha...
    Acho legal vc compartilhar sua história.
    Um forte abraço, Rosa Mônica

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  22. Puxa que juventudemais intensa. Também tive minhas rebeldias,fui a shows escondido do papai,usei saias longas, outras vezes minis para desgotos dos pais,mas acabou passou e as vezes a saudade é muita.bj

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  23. Eu conheco toda essa historia gente!
    (minha mae era meio maluca, bom, da filha ela nao pode falar nada! o/)

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  24. Eita, mas tu tens é historia pra contar ne? Quanta coisa legal. Depois nem pode reclamar que nao viveu de tudo um pouco. Achei o maximo a capa do jornal. Pense num flagrante, rs.

    Bom vc dividir isso com a gente!
    beijoooo

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  25. Linda, linda, linda a sua história, Nina!!!
    Beijos,
    Angie
    P.S. Amei a história do jornal :o)))

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  26. Que vida linda, que experiências maravilhosas, que memória fantástica, Nina! Parabéns por falar disso ainda tão apaixonadamente [o que passou, passou, mas a paixão continua].

    Também tenho minhas histórias com o PCdoB, mas elas ainda não acabaram. E olha que já saí da faculdade há alguns anos! Mas o amor continua... por um mundo mais justo e melhor do que esse que vivemos, Nina.

    Um beijo, flor!

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