08/07/2008

Minha Doce Vovó Laura

Já fazem 25 anos que minha avó morreu e nenhuma outra lembrança de amor está mais viva em mim que ela.

Vovó foi a pessoa mais importante na minha vida. Com ela eu me sentia protegida e amada o tempo inteiro, com minha avó não havia exceçoes, não havia regras, não havia pouco, nem mais ou menos, eu me sentia a mais amada das criaturas. Com minha avó Laura, eu era a mais orgulhosa pessoinha, quando passeávamos pela rua, quando andávamos de ônibus juntas, quando conversávamos no caminho de casa ou quando telefonava pra ela através do meu telefone vermelho de brinquedo, onde só eu podia ouvir a sua voz mágica.

Minha avó sabia como ninguém mostrar como nós éramos especiais. Ela tinha uma porção de netos, porque teve uma porção de filhos, mas cada neto tenho certeza, que se hoje for perguntado quem era o neto mais especial da vó Laura diria: „eu mesmo“.

A vovó nunca esquecia o aniversário de nenhum dos netos. Todos têm ótimas lembranças dela. E cada um tem as suas próprias historinhas pra contar sobre ela.

Lembro da sua pequena casa, contígua a da minha tia Luisa, que era separada por uma janelinha por onde as duas se falavam. Toda noite antes de dormir, a vovó gritava pro outro lado da casa um boa noite pra titia. E quando estávamos lá, eu e minha prima Nilce, antes de brigarmos pra saber quem iria dormir no canto da cama que dava pra parede, tendo a minha avó no meio, conversávamos alegremente até bem tarde com a tia do outro lado da casa. Eram conversas bobas e sempre com piadinhas novas que a vovó ou a tia tinham aprendido, momentos maravilhosos que até hoje estão vivos na minha memória de neta.

Ela estava sempre na sua máquina de costuras e adorava fazer babydolls de jérsey. Não sei se a vovó era muito boa costureira, acho que minha tia era bem melhor do que ela, mas ela fazia muitas coisinhas naquela máquina. Muitos babydolls pras netinhas sairam dali.

A máquina de costura já estava velhinha e ela também, sua pernas estavam cansadas daquele pedal. Um dia os filhos juntaram um dinheirinho e compraram uma máquina elétrica, novinha pra vovó. Inicialmente ela achou meio estranho, mas logo se acostumou.

Dizia que tudo o que ela tinha seria meu.

Falava que não tinha nada mesmo, mas que a casinha que tinha, e aquela máquina bonita seriam minhas. Eu ficava olhando aquilo, achava muito sem graça costurar e dizia que nunca precisaria usar aquela máquina. Mas eu adorava ver minha avó costurar enquanto conversávamos ou enquanto alguma visita chegava na sua casa.

Tinha por exemplo, a D. Esmeralda, que sempre ia lá conversar ou tomar um prato de sopa. Minha avó ajudava muitas pessoas no bairro. Titia me falou depois, que ela sempre cozinhava bem mais do que precisava, porque sempre ia alguém pedir um prato de comida, quando não tinha em casa. Ela também era voluntária num asilo perto de sua casa.

Ela não sabia ler, mas era muito sábia na sua vida. Me ensinou muito sobre o amor, bondade e generosidade. Seus olhos passavam muito carinho e suas mãos eram as mais doces no contato com os netos. Tudo o que ela cozinhava era gostoso, e o seu „caldo da caridade“, nada mais que água quente temperada com farinha de mandioca branca e outras especiarias, era o melhor revigorante pra todos. Qualquer coisa que tínhamos ela fazia o caldo da caridade e já ficávamos melhor. Ela também "rezava" na gente, quando tínhamos dores no corpo, nas costas, ou respiração difícil, ou ainda "espinhela caída", que até hoje não sei o que significa, minha vó pegava um raminho de uma folha qualquer e já ia tratando de rezar no doente. Depois estávamos inteirinhos de novo.

Ela era engraçada e ao mesmo tempo muito séria. Era boa e doce, mas sabia ser dura. Minha mãe que o diga, quando ela separou do meu pai.

Natal era sempre na casa dela e era sempre muito animado e todos os tios e primos iam lá, e esse encontro natalino era sagrado. Os mais velhos sempre faziam Amigo Oculto, e as crianças se reuniam pra brincar à vontade. Era o dia do ano mais feliz pra mim.

No seu últmo natal conosco, reunimos na nossa casa, na Vila Militar. Ela já estava de cama. Na hora dos presentes não pode sair da cama, mas se alegrou junto comigo, quando corri até o quarto em que ela estava e lhe mostrei o meu presente: uma boneca noiva, de vestido vermelho. Ela olhou, olhou, ouviu a musiquinha de casamento que a boneca tocava e disse que ela era muito, muito bonita, mas que assim que saisse da cama costuraria roupinhas de outra cor, porque nunca havia visto uma noiva de vermelho.


Em 1983, eu estava com 13 anos e minha avó se internou no Hospital. Estava com câncer de útero. Foi tudo muito rápido e ela sofreu muito, foram seis meses de agonia antes da vovó partir.

No meu aniversário daquele ano, de 13 anos, ela ainda estava internada. Fui lá visitá-la com o tio Carlos e ela ainda conseguiu lembrar da data, me fazendo chorar e ficar muito vermelha de vergonha ao vê-la cantar junto com outras velhinhas internadas e algumas enfermeiras um "parabéns pra você" pra mim, prometendo que quando saisse do hospital, costuraria um novo babydoll pra mim.

Ela saiu sim do hospital, mas direto pra sua cama, em casa, de onde nunca mais se levantou. Sentia muito calor e muita dor. Perto de sua morte já nem falava mais. Lembro dela cantando uma música da igreja, deitadinha, com lágrimas nos olhos, tendo somente uma voz murmurada e essa canção não me sai da cabeça até hoje.

Minha vó partiu em outubro e deixou um vazio muito grande na família. Um rombo que nunca mais pode ser reparado.
Não houve mais natais como os nossos, até tentamos reunir, mas não havia mais a ligação que antes era tudo pra gente, a doce vovó Laura.


Depois de alguns dias de sua morte, vi chegar um carro na rua da nossa casa na Vila. Vi meus tios chegarem carregando uma máquina de costura. Vi minha mãe olhar pra mim procurando a minha alegria de ter a única coisa que havia de valor da minha vó, procurando a alegria escondida em mim pelo cumprimento da sua promessa. Vi a máquina sendo colocada num cantinho de uma despensa.
Nunca usei aquilo. Depois de algum tempo guardada acumulando poeira, pedi pra minha mãe dar a máquina a outra tia que costurava muito bem e precisava mais do que eu.

Nunca mais houve novos baby dalls. Nunca mais ninguém me chamou de Pinguinho.

Depois de muitos anos passados desse episódio, vi que minha vó sabia o que fazia. A necessidade obriga, ensina. Precisei ganhar dinheiro pra ajudar em casa, depois que Laurinha nasceu. E minha querida tia Luisa que costura muito bem, me sugeriu aprender a costurar.

Aprendi o suficiente pra fazer algumas peças e vender na faculdade, juntamos dinheiro, eu e meu ex marido pra uma máquina velha e usada e aprendi, mais ou menos, o ofício da minha vozinha.




E agora vocês sabem de onde veio a homenagem ao nome da minha filha.

16 comentários:

  1. Mais uma história linda, que tão bem você sabe contar. Cheia de carinho e lembranças bonitas.
    Também guardo as melhores recordações dos meus avós e tenho escrito sobre isso.
    Ainda bem, de quem tem histórias de avós para lembrar. Eles enriqueceram-nos o nosso futuro.
    Não tenho dúvidas nenhumas.
    Beijnhos Nina.

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  2. Oi Nina!
    Que lembranças mais bonitas...
    Você sabe que lendo as Crônicas, me lembra tanto as Reinações...
    Tô lendo pro Caio e Pedro, o Caio achou graça demais no texto "Pretinha". O Pedro ficou confuso com as mãos... Eles realmente viajam, e você é a condutora da viajem, eu só leio...
    Beijins

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  3. Que lindo isso! Me emocionei, chorei e fiquei pensando como será quando a minha vózinha partir. Ultimamente isso é o que mais me aflige. A vejo doente,desanimada e isso bate um desespero.
    Minha avó é a coisa mais especial que eu tenho na vida,a amo tanto que chega até doer!
    Linda a homenagem que você fez a ela colocando o nome dela em sua filha.Não tinha homenagem mais bonita mesmo.
    Adorei a foto e sua avó era uma coisa fofa com carinha de vovó mesmo!^^

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  4. Eu já li Patti, e lembro de uma muito doce que vc escreveu, quando ia com uma das vovós ao cemitério e cosia botoes, tao lindas lembranças tbm...

    Nossa Sônia, que bacana imaginar vc lendo para seus meninos as historinhas da minha infância, nossa, hj tô boba de orgulho. Lembrar vc das Reinaçoes é mais que um elogio. A Patti me mandou um email dizendo que meu português abrasileirado (ela é de Portugal) lembrou qd ela lia Meu Pé de Laranja Lima, puxa, hj eu vou levitar de orgulho, me segura que tô me sentindo leve leve, rsrsrs

    fala pro Pedro que as mãos do papai e minhas tinham (têm) essa linha de nascença, uma linha como se a mão tivesse sido cortada ao meio e depois costurada. E só nós dois tínhamos.

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  5. obrigada Carlinha, ela era mesmo, uma vovó super fofinha, boazinha demais. Macia, macia, com cheiro de lavanda, de vovó "gotojinha". Aproveite bem sua vozinha minha querida, elas são mesmo especiais.

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  6. Ah! Coitada da Quiqui, ela não tinha culpa de achar minha voz terrível, afinal, todo mundo achava,rs!
    Beijos

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  7. Nina o Cazuza fez essa música para a avó dele e hoje a dedico a voce e a sua mãe com açucar.

    Poema
    Cazuza

    Composição: Cazuza / Frejat

    Eu hoje tive um pesadelo
    E levantei atento, a tempo
    Eu acordei com medo
    E procurei no escuro
    Alguém com o seu carinho
    E lembrei de um tempo

    Porque o passado me traz uma lembrança
    Do tempo que eu era ainda criança
    E o medo era motivo de choro
    Desculpa pra um abraço ou consolo

    Hoje eu acordei com medo
    Mas não chorei, nem reclamei abrigo
    Do escuro, eu via o infinito
    Sem presente, passado ou futuro
    Senti um abraço forte, já não era medo
    Era uma coisa sua que ficou em mim
    E que não tem fim

    De repente, a gente vê que perdeu
    Ou está perdendo alguma coisa
    Morna e ingênua que vai ficando no caminho
    Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
    Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás

    Abraço forte.

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  8. Nossa Nina, lendo as suas histórias eu penso, apesar de sermos tão amigas, nunca soube dessas histórias... hj estando tão longe descubros histórias maravilhosas e me deixam bem mais feliz em tê-la como melhor amiga... vc eh muito, muito especial, fiquei pensando nossa, como será a vovó Nina... com certeza, será uma vozinha maravilhosa, isso eu não tenho dúvidas... Bjs, fica com Deus!!!

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  9. Nina eu tinha 5 anos quando a vó Laura morreu mais tenho algumas lembranças dela na cabeça, lembro dela dando leite de magnese pra mim e pro Rafael o que que era aquilo, o gosto era horrível,nós queríamos engana-la, cuspíamos tudo ai dizia pra ela que tínhamos tomado só que ela sabia o que a gente fazia e ficava olhando até engolirmos, lembro que ela fez uma boneca de pano pra mim que se rasgou com o tempo de tão velha que era, ainda tenho um babydoll quardado bem pequenininho que ela fez pra mim, vou guardar pra sempre nunca tive coragem de jogar fora e olha ele tá surrado do tempo, vc tá certa a vó fazia cada um de nós netos se sentir especial ela era boa nisso, lembro que antes de morrer acho até que já estava prevendo mandou chamar de um por um dos netos do maior ao menor, não sei vc lembra disso,só sei que ficou registrado na minha memória, lembro de tudo que ela me disse naquele dia antes de não conseguir mais falar, que eu deveria estudar, obedecer pai e mãe e nunca cortar o cabelo, vc lembra como era o meu cabelo, pois é, no dia que a mãe mandou cortar chorei tanto dizendo que a vó tinha dito que nunca era pra cortar o cabelo, não consegui cumprir essa promessa, seria quase impossível não cortar aquela moita, que eu deveria estudar e muito pra ser alguma coisa na vida, no dia da minha formatura da faculdade me veio na cabeça essas palavras dela, queria que ela estivesse lá pra dizer: olha ai vovó vc tá vendo eu consegui!!!. Foi uma pena eu, o Rafa, a Núbia sermos tão pequenos qdo ela morreu, queria ter aproveitado mais ela, queria que ela tivesse tido a oportunidade de ver o que cada um de nós se tornou, que tivesse a oportunidade de ver nossos filhos, mais infelizmente isso não pôde acontecer, gostei da homenagem que vc fez pra ela, e que foto é essa, muito 10!!!bjs.

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  10. Acho que escrevi demais aja paciência pra ler!!!!

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  11. Ro, obrigada, a música é linda demais,e como eu te disse no teu blog, é exatamente assim, como se fosse ontem. 25 anos e tão recente. dói a saudade, dói demais.

    Cris, minha priminha, poxa, eu to chorando tanto com o vc escreveu. que legal saber que vc lembra tantas coisas dela. A vovó era mt bacana, eu a amava demais e ela amava cada um de nós assim, especial mesmo. vc me fez recordar cosas q não lembrava. a magnésia, coisa de vó mesmo, rsrs, e o teu cabelo, nossa, ela era louca por ele. lembra aquela boneca enorme q vc tinha? e que ela achava linda...e o teu cachorro peludão? ela ficava dodiha com ele, rsrs que legal lembrar. eu nao lembrava mais desse negócio de chamar cada de nós, mas é isso mesmo, eu lembrei. ela pediu mt que eu fizesse a primeira comunhão (eu fiz!), estudasse, é isso mesmo cris. Eu tbm sinto isso, que pena que ela não viu a gente crescer, que pena que ela nao conhece nossos filhos. que pena que nossos filhos nao tiveram a bisa Laura por perto, mas a gente tem nossas lembranças dela, e eles nossos filhos, têm nossas super mães, olha a tua mae, que é a maior vozona! nao prima, vc não escreveu demais. Obrigada!

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  12. Juli, minha amiga, mas as coisas são assim mesmo, a gente não tem mt tempo pra falar de si mesmo. infelizmente não é normal sentarmos e cada uma contar historinhas de sua vida, de como foi legal a sua infância, de como era a vovó, a titia, a mamãe, enfim. eu tbm nao sei mts coisas de ti. Lembra que um dia a Mariana (de Brasília, lá na empresa) contou aquela história horrível de que como vozinha dela morreu?? vc lembra?? eu me acabei de chorar em frente a ela. pois é, aquilo acabou comigo porque foi uma história tão absurda, e eu só pensava na minha avó.
    Não houve ninguém mais importante que dona Laura pra mim, com exceção claro,dos meus filhos.
    Um beijao amiga

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  13. Ai, Nina. Queria tanto ter conhecido a minha Vó... Ela me conheceu, mas eu não a conheci.

    Gostei de conhecer um pouco a sua Vó. Sua linda Vovó.

    Bjux querida!

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  14. Oieeeeeee...que saudades de vocês...da velhinha da Laura(Parabéns atrasado!!)...e da mamy Nina...
    Que linda história da Vovó Laura...
    Fiquei muito emocionada...tenho uma doce Vovó Eva também...que é muito preciosa na minha vida!!!
    Sei que aonde quer que ela esteja ela está cuidando do "pinguinho"...
    e guardando muito carinho para quando voces se reencotrarem!!

    Hum...template novo??? ficou tão lindoooooo....que mimosinho!!!!
    com carinha de mãe...e filha!!!
    de quem educa...rs =)

    Vou voltar com mais tempo, quero ler todos os posts! Agora tenho que desocupar a cadeira...estão querendo usar...rs

    Ah, eu ví o selinho!! Fiquei muito feliz!!!!
    amizade muito especial mesmo...
    além da internet e um monitor...
    bjim...

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  15. Lembro disso a boneca se chamava Marcela e o cahorro Fofinho, eu acho que para cada um de nós ela disse algo especial, tenho certeza que cada um de nós quarda suas palavras no coração, valeu as lembranças, foi bom bater a saudade dessa velhinha maravilhosa que um dia fez parte das nossas vidas!bjo.

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  16. Ahh Marcinha, mas a Larinha tem uma vozinha especial, nao tem?? isso é legal, vc pode viver através delas a relação que teria com sua própria vó.

    Oi Lu, obrigada, tanto pelos parabéns a Laura, como pelo selinho da amizade. doces como vc.

    Cris, lembra que vc deu a Marcela pra Laura? gente,a boneca tava toda velhinha, aí a tia Lila quis levar pra Belo Horizonte, pro "Hospital das Bonecas", mas o Ruy não permitiu. Poxa, a Laura ficou arrasada aquele dia.... ai que raiva!

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