10/06/2015

Voltar para o Brasil?

Às vezes eu penso que tenho saudade de viver no Brasil. E entao passa de relance a ideia de voltar. Alguma coisa faz falta, quando se vive longe do seu país de origem. Alguma coisa que nao tínhamos antes, quando morávamos lá. E temos a impressao de que também nao temos agora, nem nunca teremos, mas que só agora essa coisa, faz realmente falta.

É. É complicado de explicar.  E isso faz parte do "ser estrangeiro", tanto aqui, quanto lá.

Há os que dizem que viver longe, ou ter o desejo de, é uma fuga. Fugimos inconscientes ou nao, daquilo que nos afligiu um dia. Geralmente, tem a ver com infância. Dos medos que carregamos e que pensamos ficar livres quando nao presenciarmos mais os mesmos ambientes de antes. 
Pode ser. 
Foi. No meu caso. Tanto que tenho a sensacao desde muito menina, que o lugar em que eu vivia nao fazia parte de uma escolha do meu coracao.
Mas, daí, passaram-se anos, e a menina em mim cresceu. Fugi por anos, da vida que levava, mas só há pouco tempo realmente me desvinculei das dores. Nao! Melhor dizendo, me desvincularam, porque nada fiz pra mudar. Fui mudada, gracas a Deus. 

Mas entao, bem... já nao precisava mais fugir, já nao teria motivo pra me manter longe...

Mas, como voltar?
Como?

Hoje vinha pensando nisso, no caminho da cidade, até minha casa, sobre minha bicicletinha, com um solzinho bom e música no ouvido. Na cestinha da bicicleta, à minha frente, sentia o cheiro das rosas, recém compradas da senhorinha na feira. Ela estava fazendo um buquê, e eu achei tao lindo que na hora falei: me venda esse, por favor?! Ela disse sorridente, que adora quando pedem exatamente aquele que ela está a fazer. Entao, o aroma das rosas amarelas da senhorinha, invadiu meu mundinho, junto com o cheiro dos morangos maduros que levava na cesta. 
Como posso pensar em voltar a viver no Brasil se sei, eu sei, que tal cena seria muito difícil de ser vivida? Nao falo das flores, nem dos cheiros, ou dos morangos, mas falo da tranquilidade dessa vida que levo aqui.

Sempre lembro de pessoas me falando que estacionaram o carro e quando voltaram, só havia uma vaga onde antes, era um automóvel. E penso que algumas vezes, esqueco de colocar o cadeado na minha bicicleta (nao sempre, porque aqui também bicicletas sao levadas) mas, sabe, a bicicleta sempre esteve ali na volta. As pessoas andam com mochilas nas costas. Abertas! Enfeitam seus jardins e suas janelas, com flores e enfeites, que ninguém mexe. Retira-se dinheiro de caixas automáticos no meio da rua. Policial é coisa rara de se ver, só à noite, pra conter os beberroes saindo das tais baladinhas noturnas. O trânsito é tranquilo. As pessoas respeitam os sinais de trânsito e minha bicicleta tem ciclovias por toda a cidade, à vontade. Os parques sao verdes e bem cuidados. Meus filhos saem de noite e voltam de madrugada, andam de trem, bondes, bicicletas a qualquer hora. Viajam com amigos da mesma idade e eu nao fico preocupada. Pedestres aguardam o sinal verde para atravessarem a rua. Pago menos de vinte euros pelo material escolar dos meus filhos, livros sao dados pela escola e estas sao gratuitas!
Entre tantas outras vantagens de se viver aqui, que nem posso colocar neste texto.

Sim, sim, obviamente, temos problemas e mesmo toda a estrutura deste país correto e justo, tem falhado e mostrado clara tendência a piorar. E vai! Vai, mas ainda nao...

Sim, me faz falta o ambiente amoroso do meu país e o calor do meu idioma aquecendo meus ouvidos, sim, faz falta a leveza do brasileiro, a risada, a bondade de alguns, a simpatia de outros, e principalmente o amor da minha família. Faz falta, sim! Nao sou hipócrita de falar o contrário.
Mas enquanto eu puder pagar as passagens internacionais dos muitos quilômetros que nos separam, vou ficando por aqui mesmo...

Até porque, se um dia eu voltar, vai ser pra morar na beira do rio, e minha bicicleta vai ser um barquinho, vou pegar flores do quintal e colocá-las dentro de uma lata de azeite, pra enfeitar a mesa de madeira velha, enquanto tomo café puro (e sem acúcar, por favor!) com tapioca e olho o cachorro correr atrás de uma cobra, num por do sol maravilhoso sobre o rio.

Mas até lá, vou curtir a Alemanha, que sei, é aqui que Deus me colocou, e Ele tem Sua razoes, mais correta e belamente planejadas do que as minhas tolices provocadas... pela saudade.
Tao brasileira eu sou!   


11 comentários:

  1. Difícil decisão, Nina. Eu, para começo, não iria embora do meu país sem toda a minha família. então, não iria...rs
    Mas já que está aí, e feliz, fique! Não só por todas as facilidades da vida, mas porque realmente o nosso Brasil não está com nada.
    Nem preciso dizer que sou ferrenha defensora do meu país, não gosto de ler nada que fale mal dele, ainda mais por quem não vive nele, mas é preciso ser muito tola para não enxergar que este é um país que "ainda" não deu certo...E não vai dar, enquanto tivermos políticos corruptos.
    Você está com quem mais lhe interessa, que são seus filhos. Nossos pais, quando os deixamos para trás, sentem-se felizes, se estivermos, Embora a saudade.
    Fique aí, com sua bicicleta, suas flores, seu sossego.
    Beijo.
    (Sabe uma boa solução? Comprar uma casinha aqui e vir passar períodos, férias longas, quando marido se aposentar. É o ideal.)

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    1. É, Lucia essa é uma ideia antiga (comprar uma casa) mas nao sabemos se vamos querer mesmo realizar...

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  2. Nina, é difícil e deves mesmo pensar e repensar quando te dá essa vontadezinha. Posso falar por meu filho: Foi embora pra Itália, Inglaterra e de repente, depois de anos, sentiu a vontade de estar perto de nós. O que aconteceu? Foi assaltado ele e seu filho no colo, por um marginal apontando a arma na sua cabeça... Foram novamente e nunca mais pensarão em aqui morar! Pra eles, só de visita ! Aqui não temos tranquilidade, é um inferno, insegurança total! pena, pois o país é lindo! bjs, chica

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    1. Nossa, Chica, que tristeza :-( Oh meu Deus!

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  3. Oi Nina,
    Prazer em conhecer seu blog.Quando penso que já conheci todos os blogs me deparo com alguns tão bons que me pergunto: como não conheci antes?
    Voltarei sempre aqui, pois gostei do seu texto.
    Bj,
    Lylia

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  4. Oi Nina!

    Lendo um comentário teu em um post antigo do meu blog, me deu vontade vir aqui! A violência e a falta de segurança no Brasil é bem como a Chica falou acima, um inferno! Só quem vive no Brasil sabe como é, quem se mudou para fora a muito tempo não sabe como estão as coisas agora neste País... horrível! Quando se tem dúvida de alguma coisa é só listar as coisas positivas e as coisas negativas, isto vale para País ou pessoa, sempre um lado vai pesar mais, sempre tem lugares ou pessoas que tem muita mais aspectos positivos do que negativos, assim como o contrário também acontece, de ter bem mais coisas ruins do que boas... dificilmente se tem um equilíbrio de positivo e negativo sempre um lado pesa mais... eu vejo assim nos meus balanços! Muito agradável ler o seu post e o doce passeio de bicicleta, coisa que no Brasil já não é mais possível... eu não sei como as pessoas aguentam tantos absurdos neste País e não fazem uma revolução! Tudo de bom pra você! :)

    Bjs

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  5. Olá, querida Nina
    Já morei fora e, mesmo num pequeno País, nunca tive um problema de nenhum tipo com a tal da violência que os apavora...
    Difícil de se decidir com o que vc está vendo por aqui na 'terrinha que em se plantando tudo dá...
    Deus irá conduzir-lhe pela melhor opção... o melhor entre dois bens...
    Seja abençoada e feliz!!!
    Bjm fraternal

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  6. Ai Gizuis, eu até me assustei com o título da sua postagem, Ninoca.
    Te acho tão ambientada na Alemanha, tão em casa por aí, mas claro que os momentos de saudade, de nostalgia devem bater até no coração mais adaptável.
    O mundo dá tantas voltas... E o mesmo Deus que te colocou aí pode te trazer para essas bandas, se Ele achar que é o melhor para a filhinha amada Dele...
    Um beijo querida!!!

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  7. Ninoca, vou começar pela sua última frase "tão brasileira eu sou" - você é sim, muito brasileira, por esta razão tem estes arroubos de saudade e ao mesmo tempo, avalia com clareza, lucidez o que é bom para você e sua família.
    Vivemos hoje, um verdadeiro caos social, pra se ajeitar um país tão grande como o nosso, principalmente na educação, será preciso de bem mais de 50 anos, e vemos que não há sequer um plano para isso, é para se combater a corrupção, necessário se faz ter um povo educado antes de mais nada, então ... Fica por aí minha querida, venha sempre que puder e volte. Tenho certeza que é isto que Deus quer pra vocês.
    Beijinho carioca.

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  8. Nina, tambem nao volto, agora nao... quando e se penso em volta e unica e exclusivamente por conta dos meus pais, pois e muito triste eles envelhecerem longe de mim. Me corta o peito e me sinto um pouco culpada,adimito. Aqui na Holanda a questao agora de discusao sao os asilos para estrangeiros que vem naquela loucura atraves do mar entre Libia e Italia... questao muito dificil, sabe!? Acredito que ai tambem tenha isso...sim?

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