29/01/2014

A vergonha que eu carregava

Eu gosto muito de falar o quanto eu amei a minha avó. Ela morreu há exatos trinta anos e ainda hoje, mora viva no meu coracao saudoso. Você que me acompanha sabe disso. Ela era meu amor. Mas há uma coisa que você nao sabe e da qual eu muito me envergonho. 
Certas coisas acontecem comigo de forma muito rápida, no que diz respeito a aprendizagem para a vida. É muito comum eu passar por uma experiência hoje e amanha ou em algumas poucas horas, ser advertida pelo meu mal comportamento. Quer seja pela minha própria consciência ou pelo que acredito mais piamente hoje em dia, o toque de Deus na minha consciência. 
Esse caso com minha avó é um desses exemplos, que a resposta veio muito rápida.

* * * 

Eu estava saindo da escola - tinha 12 anos- com uma das amigas que eu mais admirava. Ela era super bonita, inteligente e descolada. Era a garota que eu desejava ter sido naquela época. Tudo o que aquela menina falava parecia virar moda na escola, e tudo o que ela usava era diferente, era muito "prafrentex" a guria. Andávamos conversando animadamente quando de longe, do outro lado da rua,  avistei a minha avó, que morava perto da minha escola, conversando com alguém. Eu fiquei com vergonha da minha amiga me ver falando com aquela velhinha, de cabelos brancos presos num pentinho eterno, vestido simples, uma sacola de feira nas maos e manchas causadas pelo vitiligo em ambas as pernas. Fiquei com vergonha daquela que teria certamente me abracado na rua, me carregado no colo se eu precisasse e me beijado até em casa, mesmo que eu estivesse toda suja, maltrapilha e fedorenta. 
Passei portanto rapidamente, agarrada ao braco da minha amiga super poderosa, pedindo a Deus que vovó nao me visse e me chamasse "Pingo, filha! Vem cá dá um beijo na vovó. Entao, a camisetinha de jérsey que eu  fiz deu em ti?!"  

Fiquei aliviada ao notar que vovó nao havia me visto. 

Porém, nao demos, minha amiga e eu,  nem mesmo uns vinte passos, quando notei vindo  à nossa frente, uma senhora bem velhinha, encurvada, escurinha, de lenco na cabeca e bem enrugada. A pessoa mais velhinha e humilde que já tinha visto até os meus 12 anos! Entao, vi minha descolada e linda amiga, toda feliz, indo abracar essa senhorinha. Abracou, beijou e com muito interesse perguntava como ela estava e como estavam seus filhos. Dali, em frente a igreja, onde estávamos, no bairro da Glória em Manaus, eu vi minha avó se afastando da pessoa com quem conversava, indo com sua sacolinha em direcao provavelmente à feira do bairro. Eu queria sinceramente, poder dizer hoje, pra você que me lê, que eu corri até minha avó, a abracei como sempre fazia e pedi sua bencao, mas isso nao ocorreu. Eu fiquei vendo ambas as velhinhas se distanciando, enquanto eu, tal qual um molusco, me enrolava sobre mim mesma, e entrava envergonhada na  minha concha.
Se pudesse morreria de vergonha ali mesmo.

Nunca disse isso a ninguém, porque eu tinha muita vergonha da minha atitude medíocre. Você sabe que certas coisas, mesmo que parecam ter sido sem importância, ficam como que eternamente na nossa memória, nao sabe? Eu carreguei por muitos anos essa vergonha em mim. E você pode falar o que quiser pra tentar aliviar minha culpa, que na verdade, já nao existe mais, mas nada irá desfazer o que eu fiz com minha avó.

* * *

E você, do que se envergonha? O que te faz se enrolar na tua concha com medo da tua própria acusacao?
...
Nao precisa me dizer, confesse para Aquele que de fato, quer te ouvir.
Essa história com vovó me fez  pensar nas pessoas que se sentem muito mal com o que já fizeram um dia. Nao faz muito tempo vi um homem dizendo que o céu nao deve ser um lugar muito bom, já que pelo que dizem os cristaos, lá o que vamos ver, é Jesus em volta de bandidos e assassinos. Que visao deturpada de Jesus esse pobre homem tem! 


Foi somente me tornando crista, que entendi que pessoas que fizeram muito mais mal a alguém do que eu fiz a minha avó quando tinha 12 anos, serao perdoadas, quando simplesmente, pedirem desculpas de todo seu coracao. E independente de como elas estao hoje, imundas e encardidas, terao suas almas lavadas no sangue desse Senhor. 

9 comentários:

  1. Maria Luiza Falcão29 de jan de 2014 16:05:00

    Nina, sei que muitos de nós têm histórias parecidas,principalmente quando estamos no auge da juventude e formosura, a gente olha para quem não é tão jovem mais, ou pra pessoas que não têm uma formosura aparente e sentimos algum desdém. É aquela época horrível dos sentimentos controversos, da contestação, das ambiguidades. Temos Um que nos ajuda (e permitiu essas situações nas nossas vidas antes de O conhecermos), para sempre darmos valor não à aparência, mas ao coração. ''E os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa''. 1 Coríntios 7:31 ''Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração''. 1 Samuel 16:7

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  2. Chorei quando li seu texto. Sabes que minha avó é tão importante pra mim quanto a tua pra ti.
    Eu me arrependo de uma vez, em uma discussão sobre trabalho com vovó (não me lembro ao certo o tema) , disse a ela que ela não podia falar nada porque nunca havia trabalhado na vida. Aquilo me marcou porque eu sei que a magoei, mas com certeza não a feri mais do que a mim mesma.

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  3. Lindo teu texto! Emociona.
    Acho que o nosso crescimento está em reconhecer, arrepender e não voltar a fazer. Acho que todos trazemos uma ou mais situações que nos envergonhem. Aprendamos com elas.
    beijo Nina!

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  4. Oi, Nina!
    Você foi bastante corajosa em nos contar e é disso que precisamos: coragem para assumir que não somos perfeitos.
    Tive uma amiga na adolescência que tinha vergonha da mãe, pois essa falava muito alto e era bem espalhafatosa. Os tempos não mudaram, pois outro dia, um garoto que frequenta a minha casa, disse que morria de vergonha quando a mãe usava minissaia.
    Não tive muita chance de conviver com meus avós, pois fui rapinha de tacho. Os amigos até perguntavam se a minha mãe era a minha avó e se os meus irmãos eram meus tios.
    Atualmente não tenho vergonha de nada, mas já tive da filha de uma vizinha que era prostituta. Ficava insegura de conversar com ela em público.
    Beijus,

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  5. Nina querida.que lindo o que vc escreveu...me tocou, mesmo não tendo acontecido comigo dessa mesma forma, mas acho que quando crianças cometemos essas falhas,afinal estamos aprendendo.....minha netinha querida quando está com suas amiguinhas de 5 aninhos, ignora a todos...pergunetei a ela o por que e ela falou.....tenho vergonha vovó...entendi que não é de mim ou da mãe, mas de se passar por criança na frente das amiguinhas que já se acham independentes....coisas que só mais tarde entenderão.....mas sabe, vou contar sua história para ela, pode ser que a ajude a se encontrar....linda...mil beijokas para vc e para sua vovó seja lá onde el
    a estiver...

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  6. As avós são mães outra vez, mas em dose muito maior

    beijinho

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  7. Oi flôr , linda suas postagens ...tinha vontade de te encontra desde que nos perdemos mais uma vez nas estradas da vida e das redes sociais ...Mas pelo que eu vejo vc continua a mesma Nina linda, alegre, mãezona,a mesma que me mostravas seus desenhos de moda , me deu aulas de computação(lêmbra) ....a mesma melhor vizinha que já tivemos ...via foto do joão nossa enorme e muito gato, nao vi a da Laura e nem a do mais novo ainda ...espero que aparti de agora agente não se perca mais. Há tenho uma linda princesinha chamada Sofia, que ira completar 4 anos agora ..
    Bjis

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  8. Ingrid!!!!!!!!!!!

    Que linda vc meu bem. Que saudade dos meus vizinhos preferidos tbm, nossos vizinhos preferidos e INESQUECIVEIS! Outro dia Joao me pediu de aniversario: "ah mae, faz pra mim aquele bolo de chocolate que a mae da Gabi fazia?"

    :-)

    Claro que lembro das aulas furrecas de computacao ahahaha.Ja faz um tempao ne?

    tua filhinha ja tem 4 anos Ingrid? Meu Deus, como passa rapido.

    Procura a Laura ou Joao no facebook, se tu tiver.
    E dá um beijao na querida Ione por mim.
    Mt saudade de vcs, meu amor!

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  9. Oi Nina,

    A gente sempre tem algo assim né?
    Mas ainda bem que a nossa estupidez é substituída pela maturidade, mas vamos levando estas lembranças.
    Um beijo!

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