11/03/2013

O Ceará e o Hitchcock

E tem esses dias que a gente fica meio mal, né? E é quando nao tem desculpa que conserte o mau jeito. Nao to na TPM, ninguém pisou no meu calo, eu tenho um teto, tá tudo certo. Mas fica aquele trocinho dentro da gente, pinicando, cutucando. Parece que só o que consegue alegrar é saber, é ter certeza, que amanha será um novo dia. Isso aí é imutável. Se a gente vai estar presente ou nao, aí sao outros quinhentos,como diz minha mae. Mas a gente sempre tem meio que uma certeza, né? Ahhh amanha será um novo dia. Hoje de manha escrevi um texto sobre algumas histórias meio escabrosas da minha família. Digo, meio de terrror mesmo, sabe? Daí me arrependi e deletei a postagem, porque, sei lá, falar de gente que morreu e que meio que voltou, nao é um tema muito bom pra uma segunda feira. E se a postagem atraisse outras histórias de terrorzinho? Eu ficaria aqui com medo. De quem morreu... eu heim, mexo com isso nao, sô

Mentira, uma vez sim, mexi. 
Participei um dia daquela brincadeira do copo - que tem outro nome, mas eu nao lembro - e que de brincadeira nao tem nada. As meninas me forcaram a entrar e eu era aquela que os "espiritos" queriam que saisse da brincadeira porque nao estava levando a sério. Éramos três garotas, uma delas, estava grávida de dois meses. Ela perguntou o que deveria fazer, o talzinho disse que ela deveria abortar. Voce acha que se o tal espirito fosse bonzinho como ele dizia ser, teria dado esse conselho? Eu fiquei muito chateada com isso e quis sair fora da roda na hora, e aí a menina comecou a falar estranho, a gritar, gargalhar, a correr pra lá e pra cá feito louca... meu namorado, o dono da casa em que estávamos, chegou bem mais atrasado do que de costume e disse que quase havia sofrido um acidente e teve que esperar a policia chegar. Meu namorado ficou tao puto com a gente por mexer com aquilo, que me deixou presa no quarto, com a tv ligada num filme de Hitchcock, aquele com a mulher na ducha com alguém chegando com uma faca na mao...sabe? Psicose, acho... Como eu era bobinha, fiquei lá quietinha na cama sem me mover, de olhos fechados. 

Nao se brinca com essas coisas, sabe gente? Pelo menos, eu nao, nunca mais. Deixo os mortos onde eles estao e tento levar minha vidinha, que de vez em quando  fica meio assim, "marromeno". E agora, que ja to meio que me alegrando, e falando em peixeira, lembrei de um causo. Nao é de terror, nao se preocupe.

Eu morava numa república de estudantes universitários. Nessa Casa havia muita gente de várias partes do Brasil. Um dia, o nosso telefone comunitário tocou e eu como estava mais próxima, atendi. Era alguém  com um sotaque carregado querendo falar com o Ceará, um colega nosso, obviamente, cearense. Como ele nao estava, eu pedi pra pessoa me falar que assim que ele chegasse, eu lhe daria o recado.  A pessoa disse assim: Diga a ele minha filha, que nosso irmao foi morto. As-sa-s-si-na-do! Mas que ele nao precisa se preocupar que vai ficar tudo bem. 

Meu Deus do céu! Como eu poderia passar tal recado? Fiquei doida, rodava pra lá e pra cá no corredor em frente a porta do Ceará, entao resolvi escrever um bilhete: Querido Ceará, preciso falar com você  urgentemente. Assim que chegar, porfavor, me procure.

Assim que ele chegou, bateu à minha porta. Eu já tinha preparado um copo d´água, o fiz sentar, beber calmamente, toquei na sua mao, no seu ombro, quase dei um abraco no pobrezinho, enrolei o máximo que pude e repeti com todo o cuidado o que me foi falado ao telefone. Ceará pulou de onde estava mais do que rapidamente, limpou os óculos, e falou bufando, quase soltando faísca: mas Nina,  que feladaputa fez isso com meu irmao???  Me diga! Eu fiquei pra enlouquecer, toda melindrosa que estava com ele antes e agora, o homem, cabra da peste, tava soltando baba enraivecida sobre mim. Saiu desvairado  porta afora. 

Passaram-se os dias. E numa tarde movimentada, e quente, com uma Manaus borbulhante de calor e cheia de gente em volta, Ceará me avista do outro lado da rua e grita: Oh Nina,minha filha, sabe aquele cabra que matou meu irmao?? Pois é, meu outro  irmao já mandou ele pros quintos do infernos! e deu uma risada alta e gostosa no meio da multidao.

Eita que eu queria enterrar minha cara num buraco! 
A história seria trágica se nao tivesse agora me feito sorrir, aqui comigo mesma, porque me fez pensar na casa que dividi com tanta gente boa. Até mesmo o Ceará era um cara bom. Tranquilao, mas falava mais rápido que meu pai, que era uma verdadeira matraca supersônica.  Esse mesmo Ceará, um dia me vendo comer no restaurante da Casa, foi até mim e disse muito calmamente: Nina, continue assim como você é. Você come bem devagar, isso é muito saudável. E saiu todo serelepe, ele, que comia numa rapidez tremenda porque sempre tinha que estudar  para seu curso de medicina.

Nao sei qual a moral da história minha gente. Nao me pergunte e nao espere por um fim de post onde eu vou dar uma licao de moral. Eu só estava aqui meio tristinha e acabei me alegrando. 

Eita vida cheia de histórias pra contar que eu tenho... eu sou um baú de memórias sem fundo, acredite.

10 comentários:


  1. Adorei!
    Uma ótima semana para você!
    Bjos

    www.miinteressa.com

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  2. Achei muita graça nesse seu post, viu? Tinha visto o anterior falando das histórias com mortos e como me pelo de medo de alma, pulei fora. Muito bom o jeito que você contou, parece que tá sentada perto da gente conversando, jogando conversa fora. E quando começou a falar do Ceará, fiquei morrendo de medo do que viria, sou de lá, viu? hahahaha Beijo, Nina, saudades. Na verdade não é saudade porque a gente nunca se viu, mas é um sentimento parecido com saudade que tenho por você, vá entender.
    Berê

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  3. Nina, mexer com morto nem de brincadeira até pq todas as vezes que brinquei com essas coisas, a coisa ficou preta pro meu lado. Seu amigo Ceará me fez lembrar da lembrança que tive esta semana do meu amigo do primário, o Felisberto, ele tinha cheiro de benflogim e a boca sempre meio sujinha de comida, por isso lembrei dele, cheguei em casa e o João tava meio sujinho, ri e chamei ele de Felisberto, depois encuquei, fui procurar uma amiga de infância no bate papo para ver se ela tinha notícias dele, e ela tinha: ele continua meio doidinho e agora faz parte de um partido politico. Ah, e a moral da minha história, ops não tem, só queria prosear com vc :)

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  4. Obrigada por um post tão despretensioso! Estava meio marromeno hoje e precisando rir um pouquinho e me alegrei só de imaginar o tal do Ceará e seu sotaque cearense!

    Beijo
    Mamacrica (Cris)

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  5. otima semana Ale!

    Berê, eu tbm sinto saudade de tu, mulé! Ahaha, e eu tbm tenho medo dessas coisas :-(
    E olha, vc nunca precisa ter medo do que vou falar do Ceará, viu? eu amo o teu estado, tudo ali me encanta, so nao curto mt Fortal, mas o interior do Ceará é todo maravilhoso.

    Com certeza Bi, esse é um assunto mt sério... eu era moleca e ainda nesse tempo nao gostava dessas coisas, e a brincadeira terminou seria, seríssima, a menina ficou mt estranha cara e olha eu la vendo filme de terror sozinha e no escuro :-(
    Coitado do Felisberto.. e do Joao, ahahaha

    Oi Crica, que bom te ver. Engracado ne? eu tava meio triste no inicio e fui dormir feliz, ahaha, doidinha eu... e vc? ta legal de novo?

    Bjs meninas lindas!

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  6. Isso me fez lembrar do filme "Abril Despedaçado", por que no filme o menino (Rodrigo Santoro) tinha por que tinha que vingar a morte do pai ou irmão, não me lembro bem, matando o assassino...affffffffffff
    Mas que essas histórias de morte assustam, ah assustam :-(. Bjs Nina e que bom que seu humor voltou!

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  7. Essas histórias fazem pensar e todos temos muitas.Legal lembrá-las! beijos,chica

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  8. Enquanto eu escrevia tbm lembrei do filme Sandrinha, mt triste e forte nao é? ah sim, ele tinha que vingar a morte do irmaozinho:-(

    E coooomo eu lembro viu Chica?

    bjs!

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  9. Nina.. adorei ler seus posts... eu tbem não mexo com essas coisas, tenho medo! E os causos da sua prima no post anterior? Affff... mas eu acredito nisso. Minha mãe teve uma experiencia de ficar fora do corpo (ela quase morreu) e ela vive falando das coisas e das pessoas que ela encontrou do outro lado... e a minha sobrinha tem 'dons' paranormais. Ela vê, sente e ouve coisas... eu hein! bjo

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  10. Eita, mulher!! tu és um bauzinho mesmo!! morri de rir do Ceará...hoje doutor Ceará, hein?
    :)

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