04/11/2012

Como eu gostaria que meu filho lembrasse de mim

A minha mae, eu lembro bem, era bem engracada. Lembro de ficar na mesa do jantar, ouvindo-a falar. Todos à mesa conversavam normalmente, mas a minha mae falava com uma paixao que parecia nao caber dentro dela. Paixao essa que saia pelo olhar, pelo falar, pelo movimento das maos, pelo sorriso ou cara de tonta que geralmente ela fazia, e todo mundo ria dela, porque nao tinha outra coisa a fazer, minha mae era engracada e nao sabia. Minha irma dizia que minha mae era doce. Minha irma a abracava e minha mae cabia bem embaixo das axilas da minha irma, no meio dos peitos, e minha irma sempre dizia apertada a minha mae, como era ela fofinha... acho que minha mae é que devia pensar assim, já que era ela quem se aninhava nos bracos da minha irma. Elas tinham essa ligacao bonita que eu admirava. Nao tinha ciúme da relacao da minha mae com minha irma, porque elas eram as minhas grandes paixoes e eu achava bonito a amizade e o grande afeto que as duas tinham uma pela outra, e eu pelas duas. Eu gostava de olhar a minha mae e minha irma juntas, principalmente quando elas nao se uniam pra falar sobre meus defeitos, mas quando elas batiam longos papos, principalmente na cozinha. Minha irma chegava na cozinha procurando alguma coisa pra comer e minha mae já estava lá, no seu pequeno grande reino!!

Minha mae era pequena, mas ficava grande com seus tamancos velhos mas resistentes que ela só usava pra cozinhar e grande e alegre por dentro quando bebia uma cerveja ou uma taca de vinho, enquanto cozinhava, ouvia música e até dancava sozinha. Ela ficava falando daquelas músicas antigas e das coisas do seu tempo de adolescente. Ela dizia que era assim que lembrava da minha avó Flora: De salto alto e com música no meio de aromas e sabores. Entao minha irma ficava lá contando do seu dia, falando de suas descobertas, de suas alegrias ou tristezas e minha mae sempre estava pronta pra ouvi-la, e dar conselhos e até, pedir orientacao a sua filha mais velha, que nasceu quando ela tinha apenas 23 anos. Papai soltou fogos de artifício no meio do campinho de futebol enquanto gritava: este é para as duas mulheres da minha vida! E a vizinhanca, dizia mamae, achava graca daquele maluco que veio de Belo Horizonte pra estudar em Manaus e acabou caindo nas gracas da caboquinha que era minha mae. Minha mae, que eu achava linda!! E que eu tinha muito orgulho de apresentá-la aos meus amigos, que eu abracava na rua sem o menor constrangimento, aquela com quem eu brigava quase todo dia!!

É que minha mae me tirava do sério, falava sem parar, me cobrava acordar cedo, ir pontualmente pra escola, me agasalhar muito bem contra o frio, respeitar as pessoas, cumprir com minhas obrigacoes, arrumar meu quarto, comer o bendito pao que ela fazia toda manha pra mim e pra minha irma levarmos pra escola mas que eu nunca comia! Eu achava minha mae às vezes muito, extremamente chata. Mas eu sabia que ela fazia tudo aquilo, pelo grande amor que sentia por mim e por meus irmaos. Eu sei que se ela fosse uma mae que nao estivesse nem aí pra mim, nunca me cobraria certas coisas, ela só queria me ver um cara consciente da minha grandiosidade como mais um homem neste planeta. Um homem bom, e que nao é melhor nem pior que ninguém. Ela nao queria que eu fosse melhor, ela só queria que eu fosse EU. Eu poderia ser qualquer coisa, menos ladrao, porque isso faria minha mae ficar numa tristeza sem fim, já que ela se cobrava muito que fôssemos pessoas de bem, mas eu e meus dois irmaos, poderíamos ser qualquer coisa que achássemos correto ser, de lixeiro a gari, de bicha a travesti, mas minha mae queria que fôssemos pessoas boas.

E eu via isso nela, quando ela brigava comigo sem parar, até quando ela voava pra cima de mim cuspindo fogo, com raiva porque eu, bem, eu sei, eu vivia fazendo cagada... entao, ela vinha depois e me pedia desculpas por ter reagido daquela maneira... eu é que no fim, pedia desculpas a ela, e sempre entendia que se minha mae reagia de forma tao exacerbada era porque eu tinha feito algo que ia muito contra ao que ela queria pra mim. Minha mae, eu entendo hoje, queria aquilo que toda mae quer pro seu filho: o bem! Minha mae queria que eu acordasse pra vida, que fosse um menino em vez de um moleque, um homem em vez de um saco de batatas! 

E minha mae tinha razao. Eu tinha que crescer.

Hoje vejo minha mae de outra maneira. Mais alegre ainda, mais firme, e ainda mais bonita. Consciente de suas qualidades e cercada de amor, coisa que ela sempre quis, e tanto lutou pra ter. Minha mae viveu toda a sua vida pra ter o amor que tanto leu em livros, perto dela.
Hoje ela tem o que sempre desejou, o que na verdade, sempre teve. Eu posso ouvir sua voz cantando músicas de roda agora enquanto escrevo esse texto, enquanto meus irmaos preparam o almoco de domingo e eu lembro que a música é a mesma que ela cantava quando minha irma e eu éramos criancas, agora, ela canta e está no meio da roda, com seus netinhos no jardim.

Eu acho que minha mae é a avó mais feliz e de bem com a vida que já conheci e ela era assim quando ainda era "somente", mae da gente.

E ao redor dela, eu só vejo amor! Muito amor,  e sei que seus netinhos terao a mesma impressao de sua vó Nina. Aquela eterna menina que ri com eles e que olha pra mim de soslaio, cheia de orgulho, pelo homem que me transformei...


ps. escrevi o texto imaginando ser meu filho, Joao Felipe, hoje, com 15 anos.Tenho três filhos, mas o escolhi porque nossa relacao é às vezes amarga, às vezes doce, exatamente como a vida é. Nao contei nenhuma fantasia, é assim que ele me vê hoje  (com excecao dos netinhos, que sonho ainda mas que posso esperar ;-). Espero que continue me vendo dessa maneira bonita. Ele leu. No fim, me abracou feliz, e eu, chorei.


***

A Lúcia também escreveu um texto cheio de ternura e verdade. 
Você pode ler diretamente em seu ótimo blog.

27 comentários:

  1. Linda, emocionante e tocante tua participação e relato,. Bela foto! Adorei! beijos,tudo de bom,chica

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  2. Nina, marejou meus olhos este relato...
    Um relação linda como é a vida: uma mescla de amargos e doces e sempre mais doce que amarga.
    Simplesmente lindo. Beijo

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  3. Que delícia seu relato! Ainda vou ser mãe e vou descobrir um universo ainda não experimentado. Beijos querida!

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  4. Me fez ficar com os olhos cheios d'água, sua danada. E que carinha mais linda nesta foto, exatamente como eu imagino você. beijo, Nina, saudades.
    Berê

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  5. Nina! Eu também chorei...
    Não sei como o Cláudio me imagina, todavia me esforço com ações, para que seja da melhor forma.

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  6. Eh Nina! Essa idade (15 anos) é a idade das mães sofrerem. Eles tanto podem ternos, como áridos, mas o que fica é o que nós damos e lá na frente a coisa muda. Se ele te vê como uma mulher alegre, vai saber entender quando você fica triste e vai sempre te achar verdadeira. Isso é o que importa.

    Beijos de quem já passou por tudo isso.

    PS: Acho que a imagem que passo para os meus filhos é de que a mãe é ´sempre forte e isso nem sempre é bom.

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  7. Nina querida!
    É mesmo de emocionar seu relato e que mãe bonita você teve, cheia de amor pra dar e vender.
    Bem como disse a Pitanga, nesta idade, eles costumam dar muito trabalho e não entendem nada da gente, com o tempo o coração vai amansando, principalmente quando casam e têm filhos.

    E eu, apenas quero que meu filho lembre de mim como uma mãe que sempre esteve presente em sua vida, mesmo quando ele estava morando distante, meu pensamento ia e vinha por várias vezes ao dia, numa oração calada pelo seu bem estar e proteção. Eu sei que ele vai lembrar disso, de alguém que sempre o protegeu e cuidou, mas vai lembrar também que fui chata e impertinente algumas vezes, não o deixando fazer somente o que queria, mas sempre pensando no melhor para ele e sua vida.
    A relação de uma mãe que tem filho único não é muito interessante para os outros, pois como todos sabem, só temos olhos e pensamentos para aquele ser, ele é o tudo de nossas vidas e não deixa de ser a coisa mais chata para outros o que a gente pensa ou sente. rsss
    um grande abraço carioca



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  8. Nina,
    tua emocionante projeção, fez das palavras presentes, futuro acontecido, na voz e nos sentimentos próprios que refletiram os nossos.
    A mãe revelada nas linhas é a imagem que vemos todos os dias no espelho da vida e que sabemos, nos faz unas nela.
    Desejo que teus desejos tomem forma e vida.
    Bjkas, meNIna,
    Calu

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  9. Oi Nina! Tenho lido vc com certa frequencia, muitas vezes concordo com teus textos, muitos deles me tocam profundamente, alguns discordo, mas sigo em silencio, te sigo em leitura. É assim que aprendi aos poucos dar-me a chance de conhecer sem rotular antes, pq geralmente a primeira impressao perdura comigo, sendo ela ruim ou boa, o que nem sempre resulta que ambas foram as certas impressoes. É que sou um ser extremamente emotivo, e hj seu texto comoveu-me mt, pq estou vivendo um momento de medo diante de minha expectativa como mae. Estou em minha terceira gravidez, uma gravidez que me desafia a cada dia, pq quero ser a melhor mae do mundo para meus filhos, eu havia decidido ser assim para meu principe e minha princesa. Essa terceira gravidez tem me levado duvidar de minha capacidade de ser essa mae - confesso estar morrendo de medo, como se fosse a 1° vez... Entao, entrar aqui, mts vezes me consola, me conforta. Obrigada por escrever sem rodeios, sem tantos versos ou rimas, simplesmente de forma pura, honesta, e por isso nos toca tao profundo a alma. Um abraco de uma tbm manauara. Keila

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  10. Nina, que lindo o seu texto. Falar como se fosse seu filho foi uma feliz ideia. Aqui, se eu escolhesse um deles, os outros dois iriam "torcer os narizes". rsrs
    A adolescência aqui em casa passou relativamente tranquila, pq eu era de uma braveza sem fim, embora conversasse muito com eles.
    Mas sempre deixei claro que eu e o pai é que mandávamos, quando citavam outros pais mais, digamos, maleáveis, eu dizia que fossem viver com eles, iam ver que poderia ser pior, o que a gente vê só superficialmente não quer dizer que seja melhor. rsrs
    O que vale é sermos sempre atentos e ocnversar muito, mesmo que em tom bravo, mesmo que só falando, não dialogando. Ou ouvindo e explicando nosso ponto de vista. Enfim, querida amiga, não há regras. Cada filho é um.
    Adorei a foto, ele é um gato, vai dar trabalho é pras meninas. rsrs
    Beijo neles, seus amados, e em você.
    Esteja certa de que com amor, e esse amor demosntrado, não tem como dar errado. Deus os abençoe!

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  11. Nina querida, que texto bonito! E você é linda por fora também :)

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  12. Que texto emocionante Nina!! São essas pequenas grandes memórias, a herança vamos deixar nesta caminhada. São os afetos, sejam eles quais forem, que contarão a nossa história. Bjs

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  13. Nina, querida, vc consegue nos emocionar com seus lindos textos, cheios de verdade... Bjs!

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  14. Bonito e emocionante contar dos seus desejos e expectativas que tem sobre o olhar do filho sobre vc.
    Adorei ler esta suaaa porposta aos amigos.
    bjs

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  15. Lindo texto!!! Amei!

    Minha mãe também me marcou muito... marca a minha vida até hoje e espero que ainda marque por muito tempo...

    Também escrevi sobre o assunto lá no blog...
    Passe lá para conferir!!!

    Beijos!

    Lívia.

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  16. que lindo....mocionei....

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  17. Vc sempre embargando a voz da gente, olha!! lindo, lindo, lindo!!
    Eu acredito que o tempo que doamos pra eles, os filhos, nunca será em vão e ver você colhendo os frutos do que vem semeando desde o nascimento dos seus amores (e agora recomeçando tudo com o pequeno, corajosa!) me emociona e comprova que é esse, sempre, o melhor caminho. A dedicação e o amor. Parabéns, mãezona

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  18. Oi Nina!
    como não chorar....
    eu li e reli seu texto, lindo!!!!! verdadeiro...
    Alias você é muito verdadeira... autentica...
    Sua mãe iria adorar ler esse texto... é uma descrição maravilhosa de uma filha...
    Simplesmente adorei!
    beijos e boa semana amorê

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  19. Sem comentários! Isso foi lindo Nina

    Beijos, Hellen

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  20. Ah Nina...
    As palavras brotam tão sinceramente de você que até escrevendo por seu filho você é autêntica. E verdadeira.
    Tenho certeza de que seus 3 filhotes se lembrarão da Mãe amarosa que eres... E espero que você faça uma coletânea de textos e imagens do outro blog para que seus netinhos saibam que a vovó é artista! Desenha e escreve com muito talento!
    Não engavete aquela idéia!
    Beijos querida!
    Márcia

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  21. Nina, que graca o teu texto.

    Legal que vc deu o texto para o filhote ler e quem saber acrescentar algo.

    Perfeito, em emocao, perfeito em Amor.

    Bjos

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  22. Menina, que texto lindooO... conheci seu blog através do Diversão em família e vou ficando por aqui, ok? Beijos!!

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  23. Ei meninas! mt obrigada por todo o carinho com as palavras e aquelas que contaram suas historias. Super valeu tbm as que entraram na brincadeira. Logo arrumo direitinho os links de quem participou, to meio doentinha :-(

    Keila, gostei mt do teu relato. Apesar de ter me deixado preocupada. nao tem como te responder melhor (vc escreveu como anonima, nao tem como responder pra um email, p ex.), mas fique a vontade pra vir aqui e escrever qd tiver vontade, mesmo qd vc discordar de mim, é sempre bom ver pontos de vista diferentes. E olha, nao se preocupe tanto com a vinda do terceiro filho, TUDO vai dar certo, eu te garanto. Medo todas temos... mas fique tranquila, seu bebe sente tudo na sua barriga... me escreve se quiser. O email ta em cima, na pag. do blog.

    Um beijao pra todas!

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  24. Olá, queria Nina
    Não pude resistir e já postei o meu relato... o Tema é sensacional!!!
    Vc me fez refletira sobre o meu testamento materno...
    Obrigada por esse momento...
    Deus abençoe a sua maternidade também!!!
    Bjs de paz e bem

    http://espiritual-perola.blogspot.com.br/2012/11/como-eu-gostaria-que-meu-filho-se.html

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