27/06/2008

A minha riqueza

Quando a Laura nasceu, eu e meu marido ainda éramos estudantes universitários. Morávamos numa república de estudantes. Foi um susto muito grande a notícia da gravidez. Havíamos "casado" um mês antes, e lá estava a Laura, um pequeno grão de vida, fazendo um turbilhão dentro de mim.

Junto com os enjôos, veio também muito medo do futuro, mas só uma coisa era certa na minha cabeça, eu continuaria a gravidez até o fim, mesmo com todas as dificuldades que viriam. Eu tinha 23 anos e desde os 14, sempre quis ser mãe.

Não foi fácil. O pai dela estava sem emprego, eu havia voltado a estudar depois de ter parado os estudos pra trabalhar, e agora, estava sem trabalho, por causa do curso diurno.

Morar na república era muito legal, tínhamos grandes amigos lá, era divertido, era educativo, era um jeito meio hippie e maluco de levar a vida. Tínhamos o Teatro Amazonas como vizinho, onde íamos ouvir boa música amazonense ou assistir peças de teatro, íamos ao cinema alternativo, onde víamos todos os filmes que não eram comerciais, e que por isso mesmo, aprendi a quase detestar Hollywood, até hoje (amo filme que ninguém assiste), tínhamos nossas pequenas festinhas na Casa, onde líamos, cantávamos ao som de violão, conversávamos, defendíamos crianças de rua da polícia, saíamos em passeatas contra o Collor, por melhorias na universidade, etc. Tantas coisas...

*Orgulho Amazonense!

Mas a vida também era dura, pois a grana era muito curta. Dividia um quarto muito pequeno, com 3 (!!) estudantes, mulheres. Um banheiro, armários e só. A comida no domingo não existia e era dia de passar fome. Mas era muito interessante esse convívio. Fiquei lá até o oitavo mês de gestação. Alguns poucos colegas da extrema direita na Casa, reclamaram no meu 4 mês de gravidez, que eu não deveria permanecer na Casa, pois era um mal exemplo, "grávida na casa do estudante! oohhhh!" mas a co-reitora da universidade fez uma reunião com todos da república, e fiquei, pois ela achou o cúmulo do machismo e preconceito o que eles alegaram (na verdade, somente um estudante).

Quando saí de lá, fomos morar numa pequena casinha, perto da minha mãe. Bom, aquilo não era casa, era um quadrado fechado por 4 paredes de madeira velha, sem banheiro ou pia dentro, com teto de zinco, num calor de 40 graus de uma Manaus muito quente. O que me faz lembrar de uma amiga minha, lá da casa do estudante, que dizia que Manaus estava situada exatamente em cima da cozinha industrial do diabo, rsrs.

A casinha era a única que podíamos pagar, e sinceramente, eu estava muito feliz por ter meu cantinho, onde minha filha finalmente viria ao mundo, onde ela moraria por um tempo. Laura chegou e com ela os fogos de artifício que o pai soltou ao chegarmos do hospital, ele gritava: "esse é pelas duas mulheres da minha vida" e a vizinhança se divertia com aquele maluco no meio do campinho soltando fogos.

Laura nasceu com a ajuda de muitas pessoas, ficamos num apartamento de uma maternidade particular, e ganhamos da família boa parte do enxoval, minha mãe, minhas tias Luisa e Geny, as tias do meu marido, Lila e Gabriela, foram fundamentais nesse período.

Laura podia estar numa casa muito pobre, mas tinha um lindo bercinho, um enxoval completíssimo, um brinquinho de ouro, um álbum de fotos de bebê, um diário onde a mãe escrevia tudo, duas cartinhas endereçadas a ela antes de nascer pela mãe coruja, cds de musiquinhas infantis, livros, muitas roupinhas e muito, muito amor.

*Laurinha comendo ingá

Não havia mãe e pai no mundo mais orgulhosos do que nós.

Mas na casinha, havia também os ratinhos que me acompanharam durante os 3 meses que ali morei. Depois desses três meses, fui pra Minas, passar uma época, com a família do pai da Laura. Ficamos lá 6 meses, e voltamos a Manaus.

Outra casa, um pouco maior, mas igualmente de madeira velha, mas já com compartimentos, 1 quarto, uma cozinha, um banheiro fora de casa, pia, vista pra uma área feia de Manaus, uma vizinhança pobre, e ratinhos, muitos deles. O lado da minha casa, dava pra um rio, que na enchente, me aterrorizava porque eu imaginava que ia inundar a minha casa. E pedi, aos prantos ao marido, pra mudarmos dali.

Procurei casas, por toda a Manaus até encontrar uma, pequena, igual a outra, mas com uma grande área verde em frente a casa, uma feira com legumes frescos, pertinho de uma escolinha pra Laura, já com 2 anos, e perto da minha mãe.

Com o passar do tempo, já havia voltado a estudar, o João já havia chegado, e meu marido, morava em outra cidade, porque havia se formado e conseguido um emprego muito bom. Eu continava em Manaus porque queria estudar, mas os vizinhos que eu tinha me expulsaram de Manaus, os vizinhos em questão eram aterrorizantes, e os de sempre, ratos, verdadeiras ratazanas, enormes, barulhentas, que moravam embaixo da casa de madeira, que me acordavam com o barulho que faziam enquanto conversavam um com o outro, e me deixavam assustada dia e noite.

Eu tinha um bebê de poucos meses, uma filha de 3 anos, dormia sozinha com eles, e vivia aterrorizada naquela casa. Morria de medo dos ratos. Envenanava-os, mas aquilo nunca acabava, eu estava tão desesperada que até esperar que eles saissem de sua casa com pedra na mão, eu esperava. Até que desisti e falei que pararia o curso e moraria na outra cidade com o marido, deixando Manaus pra trás.



A vida financeira mudou completamente. Tínhamos uma casa enorme, e dinheiro sufiente. Foi a decisão acertada. Apesar de frustrada pelo abandono, mais uma vez da faculdade, estávamos numa melhor situação.



Outro dia, estava lembrando disso tudo. Quando veio algo à mente que foi o melhor elogio da minha vida. Certo dia, na casa que moramos com as ratazanas, minhas três irmãs foram me visitar, uma delas falou: "puxa mana, tu é pobre viu?!". A minha irmã mais nova, respondeu por mim, com outras palavras, mas algo como: "eu não acho a Nina pobre. Olha pra ela, estuda, se esforça pra caramba, é uma maravilhosa mãe, lê muitos livros, tem mil livros aqui, e olha a Laura, olha pra Laura, como ela é. Linda, inteligente, fala melhor do que muita gente e tem só 3 anos. Olha a educação que a Nina dá pra ela. Não, eu não acho que a Nina seja pobre"


O melhor elogio da minha vida, sabia Núbia?!




Obrigada mana por ter enxergado além da situação.

11 comentários:

  1. Oh Nina, você já passou por muito, por isso é que é especial!
    É bom ouvirmos frases essas sobre nós, vindas de pessoas que nos amam e que, +principalmente, conseguem alcançar a vista apara além dos aspectos materiais, das aparências.

    Fico muito feliz com a sua felicidade de agora. Mereceu!

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  2. Que linda história Nina! Fiquei emocionada e com esperança de um futuro melhor para mim.
    Por essas e por outras que vc é uma mulher tão especial! E eu concordo plenamente com a sua irmã...Vc é uma mãe nota 100000 e isso dinheiro não compra!
    Ah! Não to com tanto ciúmes assim da carolzinha (rs), pq eu sei que ela precisa de nós e está numa fase difícil! Estou orando muito por ela e sei que ela vai conseguir tudo que ela deseja!
    Beijooos

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  3. Você é,realmente,meu exemplo de vida.Sua história é linda,Nina.Nas horas em que você mais sofreu,dá até vontade de voltar no tempo para ir lá e te dar um abraço.Mas serviu como aprendizado,não é?Todas essas coisas ruins ajudaram a construir a pessoa forte que você é hoje.Tenho muito,muito orgulho de conhecer você.
    Durante os momentos difíceis,lá estava você,se esforçando para crescer e proporcionar a melhor vida possível à Laura e ao João.
    Depois disso,a gente sente até mais prazer em viver,aprecia respirar.Sente que fazer o que é certo torna a vida feliz.
    Também achei o comentário da sua irmã o elogio mais lindo de todos!E ela estava certa.Pobreza é algo espiritual,e havia tanto amor na sua vida(apesar das dificuldades) que você poderia se considerar a pessoa mais rica de todas.Só o seu coração já vale muito.

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  4. (Desculpa, não consegui escrever mais nada. Gosto do seu exemplo.)

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  5. É tão estranho não conhecer uma pessoa e mesmo assim já sentir um carinho enooorme por ela...
    Simplesmente, muito, muito inspiradora sua história, coisa de, como a Carol falou, querer voltar no tempo e dar um abraço em você...
    :~)
    Beeijos'

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  6. Eh, Nina! Isto em Portugal chama-se "uma mulher de armas"! E você é!!!

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  7. Olha meninas, não foi nada fácil. e isso é só uma pequena, mt pequena parte do que vivi. Mas é assim, ne´gente, cada um tem o seu peso a carregar nas costas, o lance é olhar pra além da situação atual. não se fazer de vítima. jamais. e nunca desistir. acreditar sempre nos sonhos da gente, olhar pra frente mesmo, chorar o que for preciso, mas não desistir.

    essa história tá até parecendo com a Cinderela, nao tinha uns ratinhos que conversavam com ela?? entao... tudo bem, nao estou rica, nao moro num castelo,mas tenho um principe, rsrs

    Bjs pra vc todas com carinho, patty, carlinha, carol, marcia, amanda, pitanguinha...

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  8. Nina, eita vidinha difícil que era né?
    Tive meus momentos também, quando conto, rindo de tudo, porque comigo é assim, rir é o melhor remédio, as pessoas não levam muito a sério, mas tudo bem, na minha história teve muita lágrima, muita angústia, muitas noites mal dormidas.
    Que chega até ser bom olhar pra trás e ver que eu VENCI, porque Nina mulheres como nós, VENCEM, independente de onde estejam, se sobreviveram a tudo já são VENCEDORAS.
    E sim você é muito RICA:)
    Beijins

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  9. Que lindo exemplo. Amei. E concordo com tudo. Uma vez também disse isto, para os filhos de uma amiga minha (que faleceu), e eles reclamavam que eram pobres. E eu tive que intervir. Pobre como? Tem amigos, tem familia, tem estudo, sabem se cmunicar, sabem onde procurar... Pobre é quem é espezinhado, e não tem voz, nem futuro, nem esperança. Boa semana! Ethel SC

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  10. Nina q bom começar a vida assim, sem nada!!!! Mas tenho certeza q hoje vc dá mto mais valor a tudo q tem. Sua filha deve ser tb mto feliz. Adorei seu jeito de escrever. Parabéns e deus te abençoe. Vc é demais!!!
    Bjks

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